15 janeiro 2012

alberto pimenta / o desencantador



 (…)

eu
a minha história
começou há milhares de anos
e continua é claro
está agora a passar-se
como a tua
e vai continuar a passar-se
durante não sei quantos anos mais

transformar homens em animais
ou em escravos que é o mesmo
eu conheço isso melhor que ninguém
o tempo é uma burla
inventada pelos deuses
que tanto fazem de Lucius um burro
dizem eles aos poetas
como também depois dizem e mentem
“trabalha para o futuro” quer dizer
trabalha sempre para eles

e como perguntas
se é o silêncio
que nos permite existir
olha que é verdade
nunca houve um acto limpo
na história
eu sofri por isso
e dito isto
pôs  a máscara de burro
vês o que é um escravo
disse ele

Lucius disse eu
tu és Lucius

(…)


  

alberto pimenta
o desencantador
7 nós
2011


14 janeiro 2012

natália correia / queixa das almas jovens censuradas





Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.






natália correia
poesia completa
publicações dom quixote
1999




13 janeiro 2012

cedric elliot morrison / três poemas





1.

E assim chego
- colete, calça e paletó.

E sento-me, feliz da vida
na esplanada quase deserta.

Espero os ventos do sul
os musgos do norte
o sol de um pouco à esquerda do sudeste.

Talvez relinche como uma estrela fogosa
talvez chame o criado e fique mudo.

Talvez, quem sabe, me espante um bom bocado
chapéu de feltro cinzento na cabeça
dócil e omnipresente.

Que pergunta, interrogo-me perplexo
fiz a mim mesmo há pedacinho?



2.

As árvores
Não as que vi em criança
umas de roda do luar espelhado
no pequeno tanque
outras em dia de mortos
aparecendo desaparecendo
como presenças incertas
Não as árvores de repente ternas
como sementes
remotas como pedras

Mas as que gravitam em torno de nós
aflitas

silenciosas como um pensamento.



3.

Nas arribas de Cape Cod
aí pela manhã
um tipo pensativo põe-se a recordar
os tempos dilectos da juventude
quando trabalhava com o velho Miles
o carpinteiro tisnado de camisas de algodão
E ambos galhofavam serenamente
um em frente do outro, de pés em cima da mesa

na sala traseira da vetusta lojeca
atestada de móveis como dantes se faziam
perto do farol do arquipélago de Shoals.

"Quando o vento acalmava, rapariga
a morte e a doença à porta não chegavam
à porta não chegavam, digo-te eu
minha garota, minha garota bela!"

Miles, rei das cadeiras e das mesas
o das camisas baratas de algodão

Colete, calça e paletó
e às vezes uma rosa na mão direita
- mas não como se fosse um troféu.

E tudo sem palavras, sem um gesto
sem sequer uma canção que vem de longe

que vem de muito longe e ressoa.





cedric elliot morrison
(e.u.a., 1961)
tradução de nicolau saião.





12 janeiro 2012

samuel beckett / o calmante




Não sei quando morri. Sempre me pareceu que morri velho, por volta dos noventa anos, e que anos, e que o meu corpo o comprovava, da cabeça aos pés. No entanto, neste final de tarde, sozinho na minha cama gelada, sinto que vou ser mais velho do que o dia, do que a noite em que o céu caiu com todas as suas luzes sobre mim, o mesmo céu que tantas vezes olhei, desde que vagueava pela terra longínqua. Porque hoje tenho medo demais para me ouvir apodrecer, para esperar pelos grandes e violentos baques do coração, pelas contorções do ceco sem saída e para esperar que se cumpram na minha cabeça os longos assassínios, o assalto aos pilares inquebrantáveis, o amor com os cadáveres. Vou portanto contar a mim mesmo uma história, vou portanto tentar contar mais uma vez a mim mesmo uma história, para tentar acalmar-me, e é nessa história que sinto que serei velho, muito velho, ainda mais velho do que no dia em que caí, clamando por socorro, e o socorro chegou. Ou talvez nessa história eu tenha regressado à terra, depois de morrer. Não, não é o meu género, regressar à terra, depois de morrer.
(…)




samuel beckett
novelas e textos para nada
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2006

   


11 janeiro 2012

matija beckovic / dois mundos





A todo o momento esse dia está a chegar:
Enviaremos petições a todos os guardas prisionais

Pedindo-lhes que nos salvem de medo liberdade inverno
E nos permitam cumprir a nossa pena.

Quando finalmente nos puserem as algemas
Que o mundo perca o seu equilíbrio vergonhoso.

Entre as duas metades que formam o mundo,
Que a dos condenados possa tornar-se a maior

E os guardas, com vergonha e medo,
Uma noite destas, peçam para ficar connosco.







matija beckovic
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
tradução de josé alberto oliveira
assírio & alvim
2001





10 janeiro 2012

luís filipe castro mendes / memento mori




                                                            Death is not in life
                                                            (Wittgenstein)




Eu vi morrer  três pessoas
a uma acompanhei até ao fim,
no que seria talvez o que lhe restava de vida
ou porventura o que lhe sobrava de morrer;
outra morreu quando eu dormia,
longe do hospital:
e tive que atravessar pela madrugada
uma cidade estrangeira
para chegar à sua morte;
e meu Pai, enquanto eu ia
comprar-lhe uma garrafa de oxigénio,
que nunca soube a quem serviu depois.

Nós nunca vemos ninguém morrer,
porque morrer é por dentro de cada um,
como talvez tudo o que tenha algum sentido,
como talvez amor.

O que verdadeiramente importa
é opaco ao nosso olhar
e cada prova que vivemos
é só e única:
morrer ou ver morrer

e o amor também.





luís filipe castro mendes
relâmpago
revista de poesia
nr. 27 outubro
2010




09 janeiro 2012

gil t. sousa / história de amor




44

é sempre
uma história de amor:

a árvore
que se afeiçoa ao pássaro

o sol
que se liga à água

os olhos
que se prendem ao mar




gil t. sousa
falso lugar
2004





07 janeiro 2012

m. campos / o poeta




Castrava-o antes de o deixar sair.
Uns milímetros por dia, quando acordava a tempo.
A lima das unhas, a faca dos frangos,
a lâmina de se rapar por baixo,
qualquer coisa servia.
Ele não protestava, ainda era apenas uma questão de fé:
com o tempo talvez chegasse a ser pago.




m. campos

06 janeiro 2012

adolfo casais monteiro / a palavra impossível





Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.





adolfo casais monteiro
noite aberta aos quatro ventos
inquérito
1959.



05 janeiro 2012

sylvia plath / 39º de febre






Pura? O que significa isso?
As línguas do inferno
São enfadonhas, enfadonhas como a língua

Tripla do enfadonho e gordo Cérbero
Que arqueja ao portão. Incapaz
De lamber como deve ser

O tendão febril, o pecado, o pecado.
O pavio chora.
O cheiro persistente

De uma vela que se apagou!
Amor, amor, os fumos evolam-se
De mim como os lenços de Isadora, estou com medo

Que um lenço se prenda à roda e fique lá agarrado.
Esses fumos amarelos e sombrios
Erguem o seu próprio elemento. Não vão elevar-se no ar,

Mas girar à volta do globo
A sufocar os  mais velhos e submissos,
O indefeso

Bebé de estufa no seu berço,
A pálida orquídea
Que suspende no ar o seu jardim suspenso,

Leopardo demoníaco!
A radiação tornou-a branca
E matou-a numa hora.

A engordar os corpos dos adúlteros
Como a cinza de Hiroshima e a corroer.
O pecado. O pecado.

Querido, toda a noite
Trémula neste apagar-acender, apagar-acender.
Os lençóis ficam mais pesados do que o beijo de um devasso.

Três dias. Três noites.
Água com limão, água
De galinha, a água dá-me vómitos.

Sou demasiado pura para ti ou para qualquer outro.
O teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna -

A minha cabeça uma lua
De papel japonês, a minha pele lustrada de ouro
Infinitamente delicada e infinitamente cara.

Será que o meu calor não te atordoa? Nem a minha luz?
A sós comigo sou uma camélia enorme
A brilhar e a ir e vir, a cada renascer.

Creio que vou subir,
Creio poder elevar-me -
As bolhas de metal quente voam, e eu, amor, eu

Uma virgem
De puro acetileno
Tratada por rosas,

Por beijos, por querubins,
Seja o que for que significam estas coisas cor-de-rosa.
Tu não, nem aquele

Nem esse, nem o outro
(Os meus egos dissolvendo-se, saiotes de puta velha) -
A caminho do Paraíso.




sylvia plath
ariel
trad. maria fernanda borges
relógio d´ água
1996




04 janeiro 2012

abbas kiarostami / un lupo in agguato










Traço vermelho sobre o branco da neve,
presa ferida
que coxeia

Um potro branco
nasceu
de uma égua negra
ao alvorecer

O vento levará consigo
flores de cerejeira
até à alvura das nuvens

Por cada onda alta
três ondas baixas,
por cada três ondas baixas
uma onda alta

Acompanhei
a lua
ao coração de uma nuvem escura,
bebi vinho e adormeci

Quando regressei à terra natal
a casa paterna
já não existia nem a voz de minha mãe

O céu
pertence-me,
a terra
pertence-me

como sou rico!

Um mendicante
acordou sobre a margem de um regato
um sedento
acordou sobre um tesouro




abbas kiarostami
«un lupo in agguato» (um lobo ao ataque)
ed. einaudi tascabili
tradução de mário rui de oliveira.
e a tradução do texto persa é da responsabilidade de ricardo zipoli.


03 janeiro 2012

maria gabriela llansol / estas árvores balouçam na sua hesitação




190



____________ Estas árvores balouçam na sua hesitação
Mas prosseguem. Os ramos mais altos precipitam-se,
Abrem no ar pousadas. Os mais baixos ocupam. Sol não
Falta. Há apenas a curva do caminho com incidências
Drásticas na sua respiração. Sim, há ainda as concorrentes,
As sementes ininterruptas, e o incompreensível desprezo
Dos humanos. Parasceve não diz. Se o cortarem, não
Reagirá. «Por que não entendeis a leveza de prosseguir?»




maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003




02 janeiro 2012

paul éluard / anel de paz




Passei as portas do frio
Pelas portas da minha amargura
Para vir beijar teus lábios

Cidade reduzida ao nosso quarto
Onde a absurda maré do mal
Deixa uma espuma tranquilizante

Anel de paz só te tenho a ti
Ensinas-me e volto a saber
O que é um ser humano e a desistir

De saber se tenho semelhantes.





paul éluard
últimos poemas de amor
roupeiras ligeiras
trad. maria gabriela llansol
relógio d´água
2002