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26 dezembro 2021

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis


 

IV
 
Ontem sobrevivi a uma noite de inverno, depois de um dia que teve o ritmo do conflito __________, do encontro __________, e da espera.
 
__________ no terraço, a emanação da noite era exactamente igual à da outra noite na minha infância de Alpedrinha.
 
Era a noite de um afecto profundo,
depois de um conflito que me marcara; não havia vento na noite,
mas eu pensava no vento à deriva, e levantei a cabeça para ver de que lugar vinha ele do céu; deparei, primeiro, com o azul tinta, sem estrelas, e depois com as próprias estrelas frias e cintilantes que me aproximavam do espaço onde eu queria permanecer. Elevei-me, então, ao céu, sempre com a cabeça inclinada para trás.
Minha cabeça, olha.
Distintamente, todas as estrelas da Ursa Maior – as quatro do trapézio, a cauda e, seguindo o que me ensinaram na Escola, vi a Estrela Polar.
 
Com a infância invertida sobre
a minha cabeça – e quase sem eu em face de um princípio de céu
no meu firmamento – estremeci com o afecto delicioso do mundo;
não podia deixar de olhar para cima, de parar de respirar a noite, de murmurar
que estava a criar uma linguagem térrea para a estrela polar.
 
As quatro estrelas sustentavam o brilho da Ursa possuíam o esplendor de um animal suspenso da sua cena. Sem a posse do eu que está no céu, não sei que fazer da minha infância. O animal duradouro da terra começa a noite, e é o primeiro dos meus afectos que vão pelo mundo;
 
Foi assim que me trouxeram a casa,           nem sequer houve suspensão na noite inesquecível; a meio da estrada, vimos um vulto à mercê do primeiro automóvel que passasse.
 
Olhei profundamente o chão, na noite, com a mesma expressão de olhar que erguera para o céu; e sob o labéu de feio na sua boca de sapo, descobri um ser de natureza tocante, de aspecto vulnerável e bizarro, em que cada feição me atraía o afecto e o amor. “Ele á assim, infinitamente belo, através de uma outra percepção do Universo”, pensei. “Mas não está no bom caminho”, fiz-lhe sentir, com a rapidez indizível da comunicação directa. “Vou pôr-te no bom caminho, pois eu tenho braços, e posso proteger-te do meu falcão.”
 
Tenho uma certa relutância, por causa da pele viscosa, em pegar directamente no sapo fulgurante, envolvi-o na minha camisola, e pu-lo ao abrigo do olhar de Aramis.
 
A noite passava, profunda, pelo mundo,
E roubava as almas que amavam o livro de imagens, desde o princípio dos sapos, e das constelações postas sob a protecção de um animal. A Ursa caminha no céu, um sapo dera-me o privilégio de eu lhe pegar,
a manhã estava por servir.
 
 
 
maria gabriela llansol
julião sarmento
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991




 


 

18 agosto 2020

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis


VIII

______________ descobrimos, no pinhal, a configuração de uma caveira: uma caveira emerge no pinhal, à beira do caminho; olhando-a de perto, analisando-a, verifico que não é uma caveira, mas uma pedra.
     Só eu tive a ilusão de ser uma caveira por duas manchas incravadas no granito.
     — É um logro — diz-me Aramis. — Não foi propriamente uma ilusão, mas uma percepção difusa. De uma cabeça assente no chão trazendo à minha consciência o suporte da morte.
     Foi um ardil da pedra dirigido ao meu olhar.
     Só eu, naquele momento a atravessar o pinhal e a floresta das faias, teria a emoção visual de que estava a descobrir, apoiada na caruma, e à beira da vereda, uma ex-cabeça humana.  

 ~

maria gabriela llansol
julião sarmento
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991





08 agosto 2019

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis





XVIII

porque
todo o lugar é o limiar do mundo, janela de sacada que dá para a obra da paisagem; entre mim e ela há ainda uma mesa redonda – vermelha – , e duas cadeiras de jardim;          o meu universo preferido, Aramis, é a certeza da paisagem para além do limiar, e o mergulho ocular em certas cores trazidas da matéria: o castanho – da madeira; o vermelho – do ferro; o verde – das plantas;
o rosa – de uma emoção forte de suavidade.
São as cores em que a composição me é quase espontânea, juntas à sombra, constituem a                            visão.


       O azul excluído, é a cor única da nossa Comunicação final______________________ já sem caminho.



maria gabriela llansol
julião sarmento
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991







28 fevereiro 2005

book zapping #005 maria gabriela Llansol

o raio sobre o lápis




V

a conclusão de que não há abismo, e que a infância não
pára de desenvolver-se e crescer,
é um novo princípio de realidade, de morte, de velhice:
eu não deixo de viver no mundo interior e exterior das
metamorfoses flutuantes; é já dia, mas a noite que con-
duz a esperança no pensamento, e sobre si própria, não
acabou.
Não acabou definitivamente;
onde estará, protegendo-se da luz, o sapo que brilha?
Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates.»




O Raio Sobre o Lápis
de Maria Gabriela Llansol
desenhos de Julião Sarmento
Assírio & Alvim
Novembro de 2004