Mostrar mensagens com a etiqueta isabel meyrelles. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta isabel meyrelles. Mostrar todas as mensagens

09 abril 2024

isabel meyreles / o livro do tigre

 
 
 
                       XXIV
 
Só existo
durante alguns segundos por mês
quando o meu senhor tigre
encontra tempo para pensar em mim
(o meu senhor tigre é tão distraído!)
o resto do tempo
sou uma espécie de máquina
enfrascada em drogas,
mal lubrificada,
um pouco enferrujada,
bastante rabujenta,
demasiado resmungona,
que finge existir
de olhos vazios e alma ausente
por detrás da máscara bronzeada
de alguém que vai frequentemente à praia,
uma máscara que tem um ar tão verdadeiro
que toda a gente se engana,
uma máquina que vai às compras
todas as manhãs
(quanto custa o quilo de mágoas?)
que conduz o carro
sem atropelar cães e gatos,
que apanha uma mão cheia de ar
em forma de telefone
e fala horas esquecidas,
que escreve cartas de água
com um estilete de carne
e que espera, espera, espera,
meus deus por quanto tempo ainda?
 
 
 
isabel meyreles
poesia
o livro do tigre 1976
tradução de isabel meyreles
quasi
2004
 


02 abril 2023

isabel meyreles / o livro do tigre

 




 

 
           VII
 
Libertei os demónios,
é inútil que se escondam
atrás da fonte cor-de-rosa
do Jardim das Delícias,
sei que estão lá,
de nada serve atravessar
este mar encristado de cavalos selvagens,
a praia terá dentes
e dedos de enxofre e de sal,
as armadilha-para-sonhos já levantam
as cabeças de arestas petrificadas
e o tempo, o tempo, esse,
penteia os seus cabelos de areia negra
e alimenta-se do meu desejo de ti.
 
 
 
isabel meyreles
poesia
o livro do tigre 1976
tradução de isabel meyreles
quasi
2004
 




13 abril 2021

isabel meyreles / todos os dias vivemos

 
 
Todos os dias vivemos
os nossos apocalipses
como se nada fosse,
carregamos
a indiferença como um lenço de seda
à volta do pescoço,
a morte faz-nos sinal
em cada olha primaveril
da árvore-noite,
aquela que nos chama
com uivos de lobo
quando a olhamos,
barricadas atrás das nossas janelas
de presos à residência
sobre este planeta que corre
na negra água cósmica.
 
1995
 
 
 
isabel meyreles
poesia
o mensageiro dos sonhos
tradução de vitor castro
quasi
2004




13 novembro 2020

isabel meyreles / o livro do tigre

 
 
                       V I
 
Do outro lado do sonho
a memória tem olhos facetados
(mil imagens de ti por segundo)
e a raiz quadrada do coração
não é aquela que julgas.
Do outro lado do sonho
as verdades levam uns chapeuzinhos verdes
muito engraçados e baloiçam-se
nas agulhas do relógio de Deus.
Do outro lado do sonho
o tempo é uma centopeia sem cabeça
que caminha sobre um espelho invertido
e a morte uma figurinha em maçapão
vestida com um poncho peruano.
Do lado de cá do sonho
a Fénix alisa as penas
e ri estupidamente.
 
 
 
isabel meyreles
poesia
o livro do tigre 1976
tradução de isabel meyreles
quasi
2004




 

15 dezembro 2019

isabel meyreles / o retrato do marinheiro



                        I

Os olhos são cinzentos,
palhetados de negro,
o ciúme os pinta
de um verde azul boreal
o nariz é curto
as maçãs eslavas
os lábios cheios.
Nos dias em que mais seduz
ri muito e forma
três rugas no canto da boca.



isabel meyreles
poesia
o rosto deserto 1966
tradução de natália correia
quasi
2004





28 março 2019

isabel meyreles / todos os poetas fazem versos




Todos os poetas fazem versos.
Não eu.
A minha máquina de fabricar palavras
utiliza um alfabeto protoplásmico
que reproduz a tua imagem
incansavelmente
assim eu digo
é tempo que tu partas
e me deixes fazer poemas
como toda gente.



isabel meyreles
poesia
o rosto deserto 1966
tradução de natália correia
quasi
2004






04 outubro 2018

isabel meyreles / gostava de levar




Gostava de levar
a sensibilidade a tiracolo,
esta máquina fotográfica
do poeta com ciúmes,
retractar a esfolada viva
sangrando de preferência em versos
coroada em Minotauro



isabel meyreles
poesia
o rosto deserto 1966
tradução de natália correia
quasi
2004










19 junho 2018

isabel meyrelles / será a paz, será a guerra?




Será a paz, será a guerra?
Cada um sabe de que inferno vem,
saído da casca de manhã
entre dois braseiros mortais
a regra do jogo é caminhar de mão vazias
a morte dos cisnes é uma aventura sem amanhã
à sombra das pálpebras do deserto
os girassóis viraram-me as costas
relinchando de um terror empoeirado
aquilo que assobia aos meus ouvidos não tem nome
mas eu reconheço-o pelo que ele é
icebergue de sangue
uivando à lua.

Julho, 1985



isabel meyrelles
poesia
le messager des réves (o mensageiro dos sonhos)
tradução de vítor castro
quasi
2004







04 dezembro 2011

isabel meyrelles / o marinheiro em terra





IV

O Havre era azul de sol
cinzento só nos teus olhos
e na torre radar
grandes barcos
deixavam tranquilamente
o porto
iam todos para o Brasil
na praia seixos desconfortáveis
e o teu corpo imóvel
junto do meu
ocultos pelas crianças
e pelos transístores
os outros
o teu corpo tinha um gosto salgado
de lágrimas recolhidas
um paladar de saudade
a areia rangia entre os meus dentes
à noite fomos ao cinema
na avenida ao alto
as árvores fechadas à chave
como os assassinos
e os marinheiros rebeldes
em baixo
o molhe cercava cegamente o mar
toda a noite
ouvimos as sereias





isabel meyrelles
trad. do francês por natália correia
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001



20 janeiro 2011

isabel meyreles / jardin du luxembourg







As crianças eram apenas
máquinas de gritar
quando escrevi o teu nome no chão
e me vim embora





isabel meyreles
da outra margem
antologia de poesia de autores portugueses
instituto camões
2001




08 março 2010

isabel meyrelles / tu és o meu relógio de vento






Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?







isabel meyrelles
o rosto deserto
1966