27 maio 2017

al berto / trabalhos do olhar



I

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao
fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar




al berto
trabalhos do olhar
1979/82


26 maio 2017

henrique guimarães / valentino




Furtei a Deus um mistério
Para que nele ardesse o Outono - teu beijo!
Dancei, cobri-te de sangue
E acendi fogueiras para veres as cidades à noite.

Derrubei a flor na pólvora - sedutora
monstruosa de mãos púrpuras
que ao tempo errado almejou fim.
Minha história, dobra-se nua ao instinto
Zoa de imagens sabotadas e tempestuosas
Respira para que em ti o abraço seja quente
e relutante como o punho dos mares.

Por isso, eu sei
que meu espírito, um dia
Herdará da fome
uma estação do
Inferno.



henrique guimarães




25 maio 2017

josé gomes ferreira / debaixo deste sol, outro sol coincidente…



                           (Depois de reler Teixeira de Pascoaes.)



Debaixo deste sol, outro sol coincidente…
Por dentro das pedras, outras pedras de bruma…

Feliz gente!
Com duas realidades
– e eu sem ter nenhuma.


josé gomes ferreira
eléctrico 1943-1944-1945
poesia III
portugália
1971




24 maio 2017

vítor nogueira / mestre




Eis o segredo da arte: olhar constantemente
a calçada, nunca abandonar o martelo
nem a pedra que nos vem parar à mão.
Há que perder o medo e dar-lhe o golpe
certeiro. Ninguém quer saber quem somos,
só do que somos capazes.

Tudo isto é, porém, contrário à vida.
Os ciclos temáticos podem durar
dois, três anos? Duas, três décadas?
Será possível continuar a fazer eternamente
o mesmo? Como é que alguém, uma cidade,
pode ser tão claramente sádico?

Mestre-calceteiro, com o devido respeito,
não temos opinião. É mais seguro
nestes casos. Inferiores em número e armas,
o nosso olhar está na calçada, cegos
a tudo o mais que se mova.


vítor nogueira
telhados de vidro
nr. 12 maio
averno
2009






23 maio 2017

james merrill / uma dedicatória




Hans, há momentos em que todo o espírito
Se transforma num par de olhos transbordantes, ou lábios
Abrindo-se para beber da funda nascente de uma morte
Cuja frescura ainda não precisam de entender.
São estes os momentos, se os há, em que um anjo entra
No espírito, como reis nas vestes
De um pobre cabreiro, para os seus actos de caridade.
Há momentos em que a fala é apenas uma boca colada
Revê e humildemente na mão do anjo.



james merrill
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
trad. josé alberto de oliveira
assírio & alvim
2001





22 maio 2017

carlos de oliveira / descida aos infernos


9
Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.

No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las:



carlos de oliveira
descida aos infernos
antologia poética
quasi
2001




21 maio 2017

fernando pessoa / canção triste



Sol, que dá nas ruas, não dá
        No meu carinho.
A felicidade quando virá?
        Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
        De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
        E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
        Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
        E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
        Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
        De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
        Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
        E não ser já.

1917



fernando pessoa
pessoa por conhecer - textos para um novo mapa
estampa
1990




20 maio 2017

luís vaz de camões / o tempo acaba o ano, o mês e a hora




O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.



luís vaz de camões
sonetos





19 maio 2017

herberto helder / ciclo V



V
Uma noite acordarei junto ao corpo infindável
da amada, e meu sangue não se encantará.
Então, rosa a rosa murcharão meus ombros.
Quer dizer que a sombra carregará meus sentidos
de distância, como se tudo fosse o cheiro
que as ervas pungentemente perdem
através do silêncio.
Plácido chegarei à mesa, e de súbito
o coração se atravessará de gelo puro.
O vinho? perguntarei. Flores de sal cobrirão
a luz poderosa do meu olhar.
Tempo, tempo. Eu próprio perguntarei no recente
pasmo da carne: o vinho?
Rosa a rosa murcharão meus ombros.


Então lembrarei a vermelha resina, o espesso
murmúrio do sangue,
o acre e sobrenatural aroma das acácias.
Tentarei encontrar uma forma.
Com beijos antigos um momento ainda queimarei
o corpo solitário da amada, direi palavras
de uma ternura de azebre.
E uma vez mais me perderei, dizendo: o vinho?
Rosa a rosa murcharão meus ombros.


herberto helder
poesia toda
a colher na boca
assírio & alvim
1996




18 maio 2017

eugénio de andrade / coração habitado




Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de Deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhe toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.



eugénio de andrade
até ananhã 1951-1956
poemas
edit. inova
1971






17 maio 2017

luís miguel nava / rapaz



Não sei como é possível falar desse
rapaz pelo interior
de cuja pele o sol surge antes de o fazer no céu.




luís miguel nava
como alguém disse
contexto editora
1982





16 maio 2017

a. m. pires cabral / regresso da noite



E, no fim de cada noite,
no fim da trabalhosa noite
barrela de cada noite

– se acaso a noite cumpriu
a missão de que está encarregada –

regresso à luz o dia de alma enxuta,
pronta para ser passada a ferro.


a.  m. pires cabral
a noite em que a noite ardeu
cotovia
2015





15 maio 2017

maria victoria atencia / memória de adriano



                               Animula, vagula, blandula


Alma nua, sem falta alguma, embora
o ouvido ou a voz inventem tua culpa.
O pão nosso, a luz e cada dia, o sono
sua paz hão-de negar-te. Ligeira de bagagem,
assim mesmo, aceitarás o assalto da aurora.



maria victoria atencia
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985





14 maio 2017

antero de quental / nox




Noite, vão para ti meus pensamentos,
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...

Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,

E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!




antero de quental
sonetos




13 maio 2017

juan-eduardo cirlot / com os cabelos brancos



Com os cabelos brancos entre a terra branca,
levantando pedaços de prata com a boca gravada,
removendo um deserto com dias de marfim,
falando com magnólias e cordeiros vendados,
com os ossos do ódio entre leite espelhado.

Ainda.


juan-eduardo cirlot
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985




12 maio 2017

jorge luís borges / elegia



Sem que ninguém o saiba, nem o espelho,
ele chorou umas lágrimas humanas.
Não pode suspeitar que comemoram
todas as coisas que merecem lágrimas:
a beleza de Helena, que não viu,
o sempre irreparável rio dos anos,
a mão de Jesus Cristo no madeiro
de Roma, as velhas cinzas de Cartago,
o rouxinol dos húngaros e persas,
a ansiedade que aguarda, a breve sorte,
de marfim e de música, Virgílio
que cantou os trabalhos das espadas,
as configurações de tantas nuvens
de cada novo e singular ocaso
e a manhã que depois será tarde.
Do outro lado de uma porta um homem
feito de solidão, de amor, de tempo,
acaba de chorar em Buenos Aires
todas as coisas.



jorge luís borges
obra completas 1975-1985 vol. III
a cifra (1981)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




11 maio 2017

henri michaux / à distância




Mantém-te à distância, tu aí
à distância
à distância

sem poderes lançar até aqui a longa lança telefónica

à distância

neutralizado
paralisado

Que o meu nome se apague em ti
que as minhas feições se toldem em ti
que a minha pessoa se esquive em ti

em ti, chamando, desvairada
chamando quem não se vê
chamando números errados
números impossíveis
números que nunca respondem
que não respondem a nada
que já não existem
números em bairros abandonados
a chamar sem parança, louca
como a dor duma perna partida num descarrilamento
chama, chama debaixo do eixo que a esmaga
que lhe parou mesmo em cima
e tu também aí mesmo parada

longe de mim

longe de mim que respiro aqui um ar perfeito
um ar repleto de poeira
mas tão puro para os meus pulmões aliviados
fora de alcance
fora de alcance dos pregos dos teus dedos
dos pregos dos teus desígnios sobre mim

Que o mal entre em ti, massa idiota
chama avinhada

Que o mal entre em ti
agitada de fumo
espalhando clamores
derrubada por búfalos!

Brasa sobre a tua boca ávida
brasa sobre as tuas cartas tontas
de grandes hastes, grandes adeuses, enormes lenços!

Polvo sobre os teus seios excessivamente pesados
anfractuosidade sobre a tua face
rijo martelo sobre os teus dedos frios
rijo martelo sobre o teu caminhar horripilante
de cem faces, de cem ratoeiras, de cem pequenos
                                                                         fragores!

Máquinas sobre ti
de devastar
de despedaçar
de esticar
de abater
de enlouquecer


máquinas incoercíveis, incansáveis
capazes de matar à pancada a mais enfadonha!

Tonéis rolantes sobre a tua fronte para deixares de dormir
desabamentos e obras debaixo da tua fronte para deixares de
                                                                                        dormir
formigas papa-léguas, desassossegos, desassossegos
carros de Lilipute sob a tua fronte para deixares de
                                                                                         dormir
funda que volteia, arco tenso aos teus ouvidos
para deixares de ouvir!

Uivos no teu pescoço
uivos sobre os sonhos que te aplaudem
sobre os alarves que tu espantas
sobre a tua memória a arruinar-se
sobre o regalo do teu eu amimado!

Que os estropiados te tomem por passeio
que os babuínos roedores de ramos te tomem por
                                                                coqueiro
que a tua interminável língua
que ficou ainda mais longa imensamente esticada
sirva de correia de transmissão nas fábricas
sirva nas gruas a içar contentores
sirva no porto para lingar cubas e pipas!

Traineira aloucada
mãe de anões
riso de marujos

à distância
à distância
à distância!

À distância sobes montes sem fim
cais numa floresta de cordas
és levada por um onagro
por um rebanho de bisontes
por um rinoceronte furioso
por seja o que for
seja lá o quê
seja lá quem for

passando do mundo da paixão para o mundo do horror
da infecção
da putrefacção
da dissociação

por viuvez
por obstrução
por glaciação

por tremor indefinidamente repetido

à distância
à distância
à distância





henri michaux
o retiro pelo risco
tradução júlio henriques
fenda
1999