03 junho 2015

emmanuel hocquard / fim de vida. a velha língua está ali.



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     Fim de vida. A velha língua está ali.
escondida como uma carraça na orelha. Alimenta-se de tudo
     o que vejo e o seu ruído não me deixa ver o que não vejo.
     Terei passado a minha vez sem ver.
     A minha visão? Na gaiola de um esquilo,
O incessante retorno das mesmas impressões & dos mesmos
                                                                               [pensamentos
     insípidos até se tornarem enjoativos;
     até apertarem o coração como num torno: pulsações monótonas,
apagadas repetições que se atravessam subitamente, sem motivo aparente,
     a meio da noite, no desvio de uma frase
     ou em sonho, um clarão muito fugitivo,
uma fulgurante vertigem que, bruscamente, rompe os hábitos.
     Então a carraça desperta e tudo volta a ser como antes.
     Os nomes de Keats, Shelley, Sir Joseph Cheyne
estão ainda escritos nas caixas de correio dos inquilinos,
     no corredor, à esquerda da entrada. Uma flor
     cresceu nas telhas, na beira do telhado. Esta manhã,
de madrugada, vista da janela, a cidade parece uma floresta
     petrificada de árvores cinzentas sem folhagens,
     de troncos nodosos, retorcidos sob o céu tempestuoso.
     Também a cidade é um alarme, uma vertigem exacta
     no rumor das pulsações e dos tornos.
Pisa, Tony, Régis, Signore Typoce & C.ª, enquanto dormis,
     eu, Pirro, vigio as letras dos vossos nomes,
     que são as letras do meu nome.
Biblioteca, armazéns, boutiques de luxo, companhia de seguros,
     a cidade está construída sobre o alfabeto e vive sobre a reserva
     das letras: vinte e seis pulsações, em francês.

     Um dicionário & uma gramática para rectificar a vista?
Que garantia? Terei passado a minha vida sob uma chuva
                                                                              [de letras,
     tendo por vezes procurado refúgio no amor.
Mas a língua do amor, entrecortada pelos suspiros, os silêncios
     e os gritos inarticulados do prazer, é pobre,
aproximativa, inadaptada às esperanças que nela depositamos.
     O sexo de uma mulher é um abrigo muito doce,
     um refúgio sem saída, que semeamos de letras.
O amor nasce, alimenta-se, morre com a extinção provisória das
                                                                                     [letras
     que, imediatamente, renascem das suas cinzas. O amor perece
     com as letras que restitui ao mundo; e deixa-nos, de novo,
na mesma, às voltas com o velho alfabeto tomado de vertigens.





emmanuel hocquard
allée de poivriers en californie
tradução de nuno júdice
sud-express
poesia francesa de hoje
relógio d´água
1993




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