15 fevereiro 2014

guillevic / lição de coisas



O sangue é um líquido complicado
Que circula. É de um vermelho
Que aliás não se vê e que muda
Como uma planura sob várias luas.

O sangue contém corpos numerosos
Dos quais algumas pessoas sabem a fórmula.

É o nosso sangue. É ele
Que anda à volta, que volta,
Que alimenta.

O sangue derrama-se facilmente,
Basta-lhe apenas uma abertura.

O sangue de um morto por acidente
Não é o mesmo, na rua,

Que o de um morto pela liberdade,
Derramado na mesma rua.

Tem cada qual um modo particular
De ser vermelho e de gritar.




guillevic
leçon de choses, gagner (1949)
vozes da poesia europeia III
traduções de david mourão ferreira
colóquio letras 165
fundação calouste gulbenkian
2003




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