27 julho 2009

fiama hasse pais brandão / estradas







1

Esta é a estrada
que me atravessa o tórax
com os seus marcos leves.
Vagarosa vida em terraplanagem,
vivo medo. Tem o cascalho,
o pó, o macadame negro
que nos esmaece. Vai cortar-nos
o som com que gritámos.
Abater a colina clara,
que percorríamos, amantes solitários.
Vai esquecer-se dos passos
de parentes e pássaros.
É a estrada que esventra.
Estivemos no começo
e no fim do seu tempo.







fiama hasse pais brandão
cenas vivas
relógio d'água
2000




21 julho 2009

jean-arthur rimbaud / depois do dilúvio








Mal se aquietou a ideia de Dilúvio,

Uma lebre parou entre os sanfenos e
nas ondulantes campânulas e fez a sua
prece ao arco-íris através da teia da
aranha.

Oh! as pedras preciosas que se escon-
diam — as flores que já olhavam.

Na grande rua suja reapareceram as
tendas, e as barcas foram atiradas ao mar,
que era em degraus, e em cima, como
nas gravuras.

Correu o sangue, nas terras de Barba-
-Azul. Nos matadouros, nos circos, onde
o selo de Deus enlividecia as janelas.
O sangue e o leite correram.

Os castores construíram. Os mazagrãs
fumegaram nos estaminés.

Na grande casa vidrada ainda rumo-
rejante as crianças de luto olharam as
maravilhosas imagens.

Uma porta bateu — e no centro do
povoado o menino girou os braços arre-
batando os cata-ventos e os galos de todos
os campanários, sob o cintilante agua-
ceiro.

A Senhora *** instituiu um piano nos
Alpes. A missa e as primeiras comunhões
foram confiadas aos cem mil altares
da catedral.

As caravanas partiram. E o Esplêndido
Hotel foi construído sobre o caos de gelos
e de noite dos pólos.

Desde então, a Lua ouviu o uivo dos
chacais nos desertos de timo — e as églo-
gas sabias grunhindo ao vergel. Depois,
na mata violeta, sussurrante, Eucaris
disse-me que era primavera.

Irrompe, charco — Espuma, rola sobre
a ponte e por cima das árvores. Velos
negros e órgãos; raios e trovão — vinde
e rolai! — Águas e tristezas, crescei e
restabelecei os Dilúvios.

Pois, desde que eles se foram — oh as
pedras preciosas aluindo, e as flores aber-
tas! — é o tédio! e a Rainha, a Feiticeira
que acende o seu lume na frágua de barro,
nunca quererá contar-nos o que sabe e
nós ignoramos.








jean-arthur rimbaud
iluminações
uma cerveja no inferno
trad. mário cesariny
estúdios cor
1972







17 julho 2009

marcelino vespeira / hoje






O dia não foi meu
e tantos outros que o não são
erro no calendário
ou voluntária distracção

E os dias que foram meus
gestos de outros são
que se dão a quem os quer
nos dias que o não são

E da pressa de os perder
do cansaço de os contar
ganho vícios da noite
que me sabem perdurar






marcelino vespeira
a única real tradição viva
antologia da poesia surrealista portuguesa

perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
1998







14 julho 2009

luiza neto jorge / difícil poema de amor







Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes.
Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito
feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos
do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo
deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.

Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.

Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste
maléfico como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade.

Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial
quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas
da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela.
As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas:
vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vazados.
Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu?
Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a cálculos.
Amas-me demais.

Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à
boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado.
Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio
é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes. Conheces-me.
Não me tens amor

Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade
e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.

Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso
que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.

Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar.
Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos
esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro:
se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero.
O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?

Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo eu.
Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado,
pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento.
Desça com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam
sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação
em volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento.
Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado .
As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito.
Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me.
Assim nos separámos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo
será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo
e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse?
Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço
nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros
é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura
que carrego sobre o corpo a horas e desoras
ostentando-a como objecto público sagrado purulento.
O odor que as pedras têm quando corpos.
O apocalipse de tudo quando amamos.
O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos lhe respondo.
Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde
ou simplesmente de noite despertos.
Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já.
Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos
e admiramos os monumentos e morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa.
Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra.
Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa
celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas
com demónios privados nas esquinas.

Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.

És tu tão único como a noite é um astro.

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita
o meu nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!








luiza neto jorge
terra imóvel
portugália
1964




13 julho 2009

rui knopfli / gritarás o meu nome







Gritarás o meu nome em ruas
desertas e a tua voz será
como a do vento sobre a areia:
um som inútil de encontro ao silêncio.

Não responderei ao teu apelo,
embora ardentemente o deseje.
O lugar onde moro é um obscuro
lugar de pedra e mudez:

não há palavras que o alcancem.
gelam-lhe os gritos por fora.
Serei como as areias que escutam
o vento e apenas estremecem.

Gritarás o meu nome em ruas
desertas e a tua voz ouvirá
o próprio som sem entender,
como o vento, o beijo da areia.

Teu grito encontrará somente
a angústia do grito ampliado,
vento e areia. Gritarás o meu
nome em ruas desertas.







rui knopfli
memória consentida : 20 anos de poesia 1959-1979
imp. nac. casa da moeda
1982






09 julho 2009

kenneth koch / apaixonado por ti







1

Oh, que físico efeito tem em mim
Mergulhar para sempre no mar azul claro
De ser-te apresentado! Ah, mas os amigos mais queridos,
Como as formas, acabam, porque a vida tem fins. Mas
É lindo quando Outubro
Acaba, e Fevereiro acaba,
Sentar-me no engomado da minha camisa, e sonhar com o teu modo
Suave! Como se o mundo fosse um táxi, entras, e depois
Respondes ( para ninguém): " Ande cinco ou seis quarteirões. "
Não é o riacho azul que corre à tua frente uma tradução do russo?
Não são os meus olhos maiores que o amor?
Não é isto história, e nós um par de ruínas?
É Cartago Pompeia? É a almofada cama? É o sol
Que nos cola as cabeças? Ah, meia-noite, meia-noite!
É amor o que nós somos,
Ou a felicidade veio até mim num carro particular,
Tão pequenino que me espanta vê-lo aí?


2

Passeamos pelo parque ao sol, e tu dizes: " Há uma aranha
De sombra tocando o banco quando a manhã começou. " Amo-te.
Amo-te fama Amo-te sol que chove Amo-vos cigarros Amo-te amor
Amo-vos adagas Amo sorrisos adagas e simbolismo.


3

No simpósio do girassol protector do teu tão doce aspecto,
Ao lado dos crisântemos com rosto de ama, a infância
Traz de novo um Verão passado a espetar facas em framboesas de porcelana, quando a
China era
Ainda um país! Foi, o Rei Eduardo abdicou anos depois, foi
Exactamente então. Se tu tivesses setenta mil anos e eu fosse um comprimido,
Sei que poderia curar-te a dor de cabeça, como jogar basebol em água de beber, como
Cestos
De toalhas docemente tocam o chão da casa de banho! Oh, bancos de nada
Aparecem e reaparecem - electricidade!, gostaria de ser como
Tu és, como se
O mundo fosse novo, e fossem azuis os eus
Que envergamos
De madrugada,
Até que a tarde vista
Os eus encapuzados de cinzento e os eus castanhos claros de
Água! O teu verniz das unhas cor de lágrima
Beija-me! E o pátio da serração parece novo
Qual a calmaria
No mar, onde, como pombos,
Me sinto mudado, triste, tão soprado de brisa, redivivo, e porém tão não-abdicado
- Não como ponta de terra entrando pelo mar!










kenneth koch
a magia dos números e outros poemas
trad. antónio franco alexandre
quetzal
1992.






08 julho 2009

07 julho 2009

robert creeley / segundo lorca







(Para M. Marti)




A igreja é um negócio e os ricos
são os homens de negócios.
Quando tocam os sinos, os
pobres entram e amontoam-se e quando um pobre morre, tem uma
cruz
de madeira, e apressam-se na cerimónia.

Mas quando um rico morre,
retiram o Sacramento
e uma Cruz dourada e vão doucement, doucement
para o cemitério.

E os pobres adoram
e acham fantástico.








robert creeley
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução de josé alberto oliveira
assírio & alvim
2001.







06 julho 2009

saul dias / café









Quando,
à hora do Jazz,
a minha cabeça rola
pelo tecto pintado do café,
a parede em frente é uma visão de escola
onde um menino de bibe e gola
sonha com aquilo que não é.

E até os criados
têm ares purificados
como ascetas dum branco ritual.
E os mármores das mesas,
com desenhos obscenos,
surdinam vagas rezas...

E as garrafas dos álcoois e absintos,
em garbos áticos,
oferendam viáticos...

E há toalhas brancas e há velas acesas!

E ela vem sempre
(só a cabeça dela,
que o corpo
perdeu-o, porventura,
nalgum escuro quarto de aluguer).
Ela vem sempre,
como naquele dia,
serena e amavia,
única e excepcional.

O pianista
comeu os dentes do piano
e canta, de pernas para o ar,
uma canção azul.
O violinista adormeceu em pé numa cadeira
e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

E ela vem sempre
como naquela hora
estranha, delicada
e debruada a encanto.
Pura como a água, suave como um manto.

O dia é Dia Santo...








saul dias
poezz
almedina
2004