29 agosto 2007

lady lazarus




Voltei a fazê-lo.
Uma vez em cada dez anos
Lá consigo —

Uma espécie de milagre ambulante, a minha pele
Brilhante como a de um candeeiro nazi,
O meu pé direito

Um pisa-papéis,
O meu rosto vulgar, fino
E de judia cepa.

Apaga-me da toalha
Oh, inimigo meu.
Meto medo a alguém?

O nariz, as covas dos olhos, os dentes todos?
O hálito acre
Desaparecerá um dia.

Daqui a pouco, daqui a pouco a carne
Que a sepultura comeu ficará
À vontade comigo como se em sua casa.

Mas eu sou uma mulher optimista.
Só tenho trinta anos.
E como os gatos tenho sete vidas para viver.

Esta é a Número Três.
Que porcaria de vida
A aniquilar todos os dez anos.

Quantos milhões de filamentos.
Uma multidão a roer amendoins
Empurra-se para ver

Sôfregos a despirem-me
Que fantástico strip tease.
Meus senhores, minhas senhoras

Estas são as minhas mãos
Os meus joelhos.
Talvez eu seja apenas pele e osso,

Contudo, sou precisamente a mesma mulher.
A primeira vez foi aos dez anos.
Foi um acidente.

Da segunda vez eu quis mesmo
Ir até ao fim e nunca mais regressar.
Voltei fechada

Como uma concha.
Tiveram de me chamar e voltar a chamar
E arrancar de mim os vermes como se pérolas pegajosas.

Morrer
É uma arte, como outra coisa qualquer.
E eu executo-a excepcionalmente bem.

Executo-a de forma a parecer-se com o inferno.
Executo-a de forma a parecer real.
Acho que se podia dizer que tenho um dom.

É bastante fácil executá-la numa cela.
É bastante fácil executá-la e ficar como se nada fosse.
É cena de teatro

Regressar em pleno dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, ao mesmo brutal
E divertido grito:

Um milagre!
Que me põe K.O.
Há que pagar.

Para ver as minhas cicatrizes, há que pagar
Para ouvir o meu coração —
É assim mesmo.

Há que pagar, e pagar bem.
Por uma palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue

Ou por um bocado do meu cabelo ou da minha roupa.
Vá lá então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.

Sou o seu opus,
Sou a sua jóia de estimação,
Um bebé todo em ouro

Que se funde com um grito.
Volto-me e ardo.
Não pense que subestimo as suas grandes preocupações.

Cinza, cinza —
Mexe e atiça.
Carne, osso, nada mais ali existe —

Um pedaço de sabonete,
Uma aliança de casamento,
A coroa em ouro de um dente.

Herr Deus, Herr Lúcifer
Tende cuidado
Muito cuidado.

Renasço das cinzas
Com o meu cabelo fulvo
E devoro homens como faço ao ar.






sylvia plath
ariel
trad. maria fernanda borges
relógio d´água
1996





23 agosto 2007

paris, os passeios de um flâneur









(…)


Era no Hôtel de Lauzun que Le Club des Hachichins realizava as suas reuniões. Aí, um grupo de homens ligados às letras e às artes — incluindo os escritores Balzac, Gautier e Baudelaire e os pintores Édouard Manet, Honoré Daumier e Constantin Guys — reunia-se com umas quantas mulheres para passar longas noites em que ouviam música e... comiam haxixe (porque, pelos vistos, o haxixe era servido sob a forma de uma geleia esverdeada), O anfitrião, Fernand Boissard, um pintor menor, era rico (sem depender de heranças) e vivia no principal e principesco andar do Hôtel, onde tinha um clavicórdio, ao que parece decorado com pinturas de Watteau, e elegantes peças de mobiliário que casavam na perfeição com as paredes e as portas pintadas, esculpidas e douradas. Boissard costumava tocar violino quando estava pedrado; ou então contratava músicos para o acompanharem num trio de Beethoven ou Mozart.

Uma das visitas da casa, Paul Guilly, lembra que Boissard

...era um homem que vivia para o refinamento e a volúpia e que tinha verdadeiro horror aos convidados importunos ou maçadores. O seu maior prazer era receber e, por isso mesmo, seleccionava as visitas com todo o cuidado; não se podia aparecer sem convite, mas, a partir do momento em que éramos admitidos no círculo íntimo, podíamos fazer ou dizer aquilo que nos apetecesse. Rodeava-se de artistas que partilhavam os seus gostos e de belas raparigas que não eram obtusas, nem, em abono da verdade, completamente ignorantes das questões espirituais ou artísticas. Acima de tudo, Boissard adorava os jantares com amigos sinceros, incondicionais, essas noites íntimas em que passávamos horas debatendo os significados de um paradoxo entre um pouco de música de cravo e as estrofes de um poema.

Théophile Gautier deixou-nos um relato extremamente colorido da sua primeira participação numa das reuniões mensais do Club des Hachichins. Nesse texto, Gautier recorda que estava uma noite de breu e um nevoeiro muito cerrado — uma verdadeira tela de algodão que esbatia todos os objectos e que só a luz das lanternas ou das janelas conseguia penetrar. Além disso, caía uma chuva fria, de tal forma que o cocheiro de Gautier mal conseguia enxergar a placa de mármore que indicava o nome do Hôtel. Uma velha criada abriu-lhe a pesada porta e, com um dedo magro, indicou-lhe o caminho.

De súbito, o escritor viu-se diante de uma daquelas escadarias gigantescas construídas na época de Luís XIV (tão gigantesca, de facto, que uma casa moderna caberia toda lá dentro com a maior facilidade, diz Gautier). A estátua de uma quimera egípcia erguia uma única vela. Pensando nos cortesãos do século XVII com as suas rendas e perucas, Gautier concluiu que estava pessimamente vestido para a ocasião. No andar de cima, Gautier tocou a uma sineta e logo penetrou numa ampla sala, iluminada apenas numa das extremidades; nesse instante, teve a clara sensação de que acabara de recuar dois séculos.

Um médico encarregava-se do haxixe. Aparecia com uma bandeja carregada de geleia verde e os convidados, depois de terem comido a dose a que tinham direito, passavam uns aos outros as chávenas de café turco. Tendo começado com a última coisa que se serviria num jantar francês normal, sentavam-se depois a uma mesa a fim de degustarem uma refeição mais convencional. Os pratos e os copos, contudo, eram estranhos, exóticos — pratos de serviços diferentes (da China, do Japão, da Saxónia), copos de cristal de Veneza. Sob a influência da droga, a água sabia a vinho e a carne a framboesas. Com a refeição já perto do fim, Gautier sentiu que estava a enlouquecer. As alucinações que, durante o jantar, se tinham apossado dele em vagas intermitentes, converter-se-iam, durante o resto da noite, numa parte permanente, embora sujeita a flutuações constantes, da sua percepção.

Todos os sinais de quem está totalmente, delirantemente, ou mesmo perigosamente pedrado, e que o meu caro leitor tão bem conhece, eram já algo de familiar para os frequentadores e residentes do Hôtel de Lauzun mais dados às artes e às letras. Rompiam num riso incontrolável e, escassos segundos depois, um medo inexprimível apossava-se deles, logo seguido de um plangente amor a toda a humanidade ou da total imersão num livro de gravuras. Os movimentos tornavam-se lentos e viscosos, o tamanho dos quartos expandia-se de uma forma brutal, um sentido do épico e do magnificente distorcia a atmosfera da reunião, para logo ser substituído por um olhar que descobria com repulsa os grotescos rostos dos outros hachichins. Tudo era tão distorcido — e tão apelativo para a imaginação — que não admira que Gautier tivesse usado a palavra «fantasia» para descrever uma tal noite. Saberia Gautier (por certo sabia) que uma fantasia era também uma composição musical de forma livre aberta ao improviso? Ou que, em Marrocos, uma fantasia era uma gala equestre e militar que envolvia espectaculares investidas de sucessivos esquadrões de cavalaria dotados de inexcedíveis talentos na arte da equitação, os homens vestidos com figurinos de veludo debruados a ouro e mantos esvoaçantes, montando magníficos garanhões, acompanhados por uma banda e por tambores e até por danças, e com toda a cena envolta no nevoeiro causado pelo fumo das fogueiras onde se preparava o banquete que se seguiria ao espectáculo?

Como seria de esperar, Balzac inspeccionou com toda a atenção a geleia verde e chegou mesmo a pegar nos diversos apetrechos, provenientes do Próximo Oriente, que se destinavam ao consumo da droga, e, como era seu timbre, fez todas as perguntas do género «recolha de informações» — mas não provou nem um miligrama do haxixe, receando perder o controlo da sua vontade de aço ou da sua influenciável mente. Provavelmente, o Clube dos Consumidores de Haxixe não se reuniu mais de oito ou nove vezes. Também não há nenhuma prova de que o próprio Baudelaire tenha experimentado a droga mais do que uma ou duas vezes; de qualquer modo, o poeta considerava o vinho preferível ao haxixe, já que o vinho, dizia ele, era mais «democrático» porque mais barato e mais facilmente disponível (tal e qual como Oscar Wilde, Baudelaire era simultaneamente um «socialista» e um snob estético). Para ser mais exacto, Baudelaire louvava tanto o vinho como o haxixe por promoverem «o excessivo desenvolvimento poético da humanidade», mas não deixava de acentuar que o vinho exalta a vontade, o haxixe aniquila-a. O vinho é um sustento para o corpo, o haxixe uma arma pata o suicídio. O vinho torna as pessoas boas e amistosas. O haxixe isola, O vinho significa trabalho duro, ao passo que o haxixe é um sinónimo de preguiça. Por que estranha razão há-de alguém suportar a maçada que é trabalhar, lavrar a terra, escrever, enfim, fazer o que quer que seja, se, com uma fumaça, pode alcançar o paraíso? O vinho é para as pessoas que trabalham e que merecem bebê-lo. O haxixe pertence à categoria dos prazeres solitários; foi feito para o ocioso infeliz, O vinho é útil, produz resultados frutíferos. O haxixe é inútil e perigoso.

É possível que a imaginação de Baudelaire fosse tão espicaçada pela atmosfera do Hôtel de Lauzun como pelo próprio haxixe. Ele e Gautier celebravam a história segundo a qual a palavra haxixe estaria ligada à palavra assassino; no seu conto Le Club des Hachichins, Gautier conta mesmo a história do déspota «oriental» que transformou os seus homens em saqueadores (ou assassinos) desvairadamente intrépidos e sem o menor medo da morte, mantendo-os constantemente pedrados com haxixe.

Ou talvez Baudelaire tivesse sido estimulado pelos seus companheiros e muito em particular por uma surpreendente jovem conhecida como Pomaré (de seu verdadeiro nome Elise Sergent) que praticava o travestismo. «La Pomaré», como lhe chamava Baudelaire, vestia-se como um «gentleman» (o poeta usava a palavra inglesa), com gravata branca, fraque preto, calças pretas e sobretudo branco. As mãos enluvadas de branco costumavam empunhar uma bengala. A Pomaré era, segundo o poeta, um bom camarada e óptima companhia — excepto quando dava com uma bourgeoise num restaurante. Se, por exemplo, visse a mulher de um notário sentada a uma mesa com o marido, tinha um acesso de fúria e rompia a cantar a sua canção favorita — que falava de um general do exército italiano que estava de cócoras a coçar os tomates, o que levava uma elegante virgem a dizer-lhe que ele não passava de um cara de cu... A Pornaré era alta e esbelta, com um peito raso, um dito espirituoso sempre na ponta da língua e, quando lhe dava para isso, era tão frontal, tão terra-a-terra, que Baudelaire lhe chamava «o meu camarada das ancas largas». A Pomaré vivia no Hôtel de Lauzun e Baudelaire desejava-a (ou, pelo menos, excitava-o a ideia de uma mulher tão sem pruridos nem inibições) tanto quanto a estimava.

(…)









edmund white
paris, os passeios de um flâneur
tradução josé vieira de lima
asa editores
2004








19 agosto 2007

talbot road

onde vivi em Londres 1964-5






1

Entre as boutiques creme
de Notting Hill e as menos definidas
mas inóspitas paragens de Harrow Road,
toda ela tijolo enegrecido, ficava a rua
construída para burgueses, uma outra Belgravia,
que acabara por ficar
para operários («Negros ou Irlandeses
Não se Precisam») para depois como as veias
de um inglês de gema
se encher de uma mistura promíscua:
polaco, italiano, irlandês, jamaicano,
fluxo rico e revolto. Um restaurante jugoslavo
encaixilhou fotografias de príncipes exilados,
mas as crianças eram gralhas com sotaque de Londres.
Vivi em Talbot Road
durante um ano. O excelente quarto
onde dormi, comi, li e escrevi
tinha um tecto alto, a toda a volta
rosas de estuque tinham sido pintadas de azul.
Podia passar-se pela janela
para uma varanda maciça e até
(se o cano não estivesse entupido)
lá jantar em noites quentes.
A isto chamo pleno acesso –
ao ar, à rua, à amizade:
pois dali podia ver, ao fundo de algumas ruas,
a janela onde o Tony, o meu velho amigo,
trabalhava em traduções. Também eu tentava
verter passos obscuros em inglês claro,
como faço agora.



2

Amigo sedutor e difícil,
conselheiro e aliado. Como estudantes
absortos no nosso próprio romantismo,
poeta inocente e actor posáramos
representáramos os nossos papéis um ao outro
tem-me por vezes parecido
como garanhões em casa de passe.
Ele via-se, todavia, às voltas
com a figura mais bonita do seu curso.
Se «os ricos são diferentes de nós»,
também os bonitos o são. O que
é que ele na verdade queria? Ah, a tal pergunta...

Duas ligações a correr em Londres,
uma em Northampton, uma na Irlanda,
provavelmente outras. Amigos e amantes
todos tinham as suas versões privadas dele.
Duque fantástico de lugares escuros,
nunca precisava de mentir:
tínhamos aprendido a não fazer perguntas.

O fogo de alguém tão bonito.
Mas quase escondido pelo aro do fogo,
por trás da máscula doação de si,
no centro da exuberância, havia
algo retido, lento, algo -
o quê? o quê? Um brasido húmido de insatisfação.
Especulava então sobre as «relações humanas»
que deveríamos entender
— vide Forster, passim, etc. –
como um fim, um bem em si mesmas.
Ele não as via desse modo.

Finalmente deu nisto,
as poses desfizeram-se a este ponto:
gostava mais de nós pelas nossas faltas
do que por aquilo que pudéssemos dar-lhe.
Quando uma vez num pub perdi a cabeça,
voltei abrindo caminho a ombro do urinol
e disse ríspido: «Estava zangado demais para mijar.»
No dia seguinte exclamou encantado,
«Sabes que foi a primeira vez
que te zangaste comigo?»
Como algumas pessoas esperam por um sinal de amor,
ele esperara não sei quantos anos
por um sinal de cólera,
por um sinal de alguma coisa que não o amor.



3

Uma Londres a que se volta doze anos depois.
Numa longa passagem entre duas ruas
vi por ali andando quem fui outrora
ou assim parecia
um jovem à volta dos dezanove fitando-me
de uma curva do desejo. Manteve o olhar
como se o abrigasse do vento.
Os nossos olhares falaram-se, depois tocámo-nos
na conversa dos corpos.
Juntos em pé no asfalto às claras,
gradualmente nos abandonámos a um riso partilhado.
Era este o ano, o ano da reconciliação
com o que quer que fosse que tinha deixado,
o calor acídico das emoções adolescentes,
o emudecimento prematuro e o desprezo de si.
No meu riso, na minha sorte,
perdoei-me a mim mesmo ter tido uma adolescência.

Comecei a acumular perdões
até em antecipação. Em Hampstead Heath
conhecia desde criança cada caminho súbito,
os nós de cada árvore a que podia subir-se.
E agora acometi-os à noite
e, onde jogara às escondidas
com crianças da zona, joguei como um adulto
com rondas de homens cujos turnos se cruzavam
na Árvore da Orgia ou no bosque
de troncos de vidoeiro fulgindo como sentinelas mudas
ou em tendas de ramo e arbusto
cercados pelo cheiro familiar
de folha tenra salgada, explosiva.
Numa floresta de Arden, num sonho de uma noite de verão
perdoei a toda a gente a sua juventude.



4

Mas voltei, depois do último autocarro,
de Hampstead, Wimbledon, dos pubs,
dos viadutos de comboios do East End,
voltei a Talbot Road,
ao tijolo, ao cimento das frentes arturianas,
às grades da zona perto de alçapões de carvão,
às espessas colunas dos vestíbulos.
A minha varanda enchia-se de neve húmida.
Quando secava, o Tony e eu
almoçávamos aí ao sol
empada de vitela e presunto, cerveja e salada.
Falava-lhe das minhas aventuras.
Ele perguntava-se em voz alta se seria mais feliz
se fosse bicha como eu.
Como poderia ele querer, perguntava-me eu,
ser outro que não ele?
Então tinha de ir-se embora,
ir-se na vivacidade do seu andar
para onde, nunca perguntei ou adivinhei.

No final do meu ano, antes de partir,
ele deu uma grande festa para mim
num barco dos canais. A festa deslizou
pela malha aquosa de Londres,
rede que sempre apercebêramos
a um canto do olho
por trás de grades ou do cimo dos autocarros.
Agora cá estávamos, levados nela,
num piquenique, olhando entre garfadas
para traseiras de prédios, para paredes negras de fumo
cor de coral à luz do longo crepúsculo,
para o que sempre suspeitáramos
quando cruzávamos as pontes sob que passávamos agora,
deslizando entre o segredo aberto.



5

Isto foi há quinze anos.
O Tony morreu, o bairro em que vivi
foi deitado abaixo. A mente
é um lugar impermanente, será,
mas aspira à permanência.
A rua abriu e abriu-se
à total ausência de carácter. Ontem à noite
sonhei com ela como poderia ter sido,
o passeio junto ao gradeamento da igreja
estava molhado com chuva primaveril,
era noite, a luz dos candeeiros
esboçava-a numa gravura perfeita.
Postal sentimental de um sonho,
de um momento entre tumultos raciais!

Mas lembro-me, nítida, da minha última semana,
quando todos os detalhes se iluminaram de sentido.
Um rapaz estava a ficar pareceu-me,
com a sua avó na casa em frente.
Era um rapaz novo, talvez do campo.
Todas as noites dessa semana
se sentou com a sua camisa branca à janela
— um arco gótico de proporções diminutas —
apoiado nos braços, olhando para baixo
como se atentamente decifrasse caracteres
de uma língua viva que ainda estava a aprender,
nem um sorriso fazendo estalar as suas faces róseas.
Olhando em baixo
o tráfego humano, de todas as nações,
os justos e os injustos, quem
eram eles, para onde iam,
aquele belo derrame público à margem do qual
ele esperava, composto, maravilhando-se remoto
e sem pressa
antes de estar pronto um dia
para descer àquela corrente viva.








thom gunn
as escadas não têm degraus 3
tradução de antónio m. feijó
livros cotovia
março 1990








17 agosto 2007

regresso a casa





regressar a casa
despir o véu da rua
subir os outros

degrau a degrau
deixá-los
no cimo dos dias

ali
imóveis, pintados
sem doerem

e ir à procura das palavras
das fiéis palavras
que nos esperam

que nos esperaram sempre
com um vinho forte na mão
uma droga

ou um sonho
ou apenas
um sonho

ou então um cavalo
um louco cavalo
uma máquina iluminada

de fugir
de ir
pelo gume mais aceso das montanhas

e voltar
pela maré serena
dos rios







gil t. sousa
poemas
2001







16 agosto 2007

que faria







que faria sem este mundo sem rosto sem perguntas
onde ser dura apenas um instante onde cada instante
verte para o vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no final
corpo e sombra juntos se devoram
que faria sem este silêncio sorvedouro dos murmúrios
que anelam frenéticos por socorro por amor
sem este céu que se ergue
sobre a poeira do seu lastro


que faria faria o que fiz ontem o que fiz hoje
espreitar do meu postigo para ver se não estou só
a dar voltas e voltas longe de toda a vida
num espaço fantoche
sem voz no meio das vozes
encerradas comigo

1948








samuel beckett
trad. manuel portela
“Relâmpago” nr.13
10/2003






14 agosto 2007

andre breton e paul éluard / o juízo original






Não leias. Olha as figuras brancas desenhadas pelos intervalos separando as palavras de várias linhas dos livros e inspira-te nelas.

Dá aos outros a tua mão a guardar.

Não te deites sobre as muralhas.

Retoma a armadura que abandonaste na idade da razão.

Põe a ordem no seu lugar, desarruma as pedras da estrada.

Se sangras e és homem, apaga a última palavra na ardósia.

Forma os teus olhos fechando-os.

Dá aos sonhos que esqueceste o valor daquilo que não conheces.

Conheci três lampistas, cinco guarda-barreiras mulheres, um guarda-barreira homem: e tu?

Não prepares as palavras que gritas.

Habita as casas abandonadas. Não foram habitadas senão por ti.

Faz um leito de afagos aos teus afagos.

Se eles batem à porta, escreve as tuas últimas vontades com a chave.

Rouba o sentido ao som, existem tambores encobertos mesmo nos vestidos claros.

Canta a grande piedade dos monstros. Evoca todas as mulheres de pé sobre o cavalo de Tróia.

Não bebas água.

Como a letra l e a letra m, pelo meio encontrarás a asa e a serpente.

Fala consoante a loucura que te seduziu.

Veste-te com cores cintilantes, não é hábito.

O que encontras só te pertence enquanto a tua mão está estendida.

Mente ao morder o arminho dos teus juízes.

Enforca-te, bravo Crillon, eles te tirarão da forca com o seu Isso depende.

Ata as pernas infiéis.

Deixa a madrugada aumentar a ferrugem dos teus sonhos.

Aprende a esperar, de pés para a frente. É assim que brevemente sairás, bem coberto.

Acende as perspectivas da fadiga.


Vende com que comer, compra com que morrer de fome.

Faz-lhes a surpresa de não confundir o futuro do verbo ter com o passado do verbo ser.

Sê o vidraceiro da pedra engastada no vidro novo.

A quem peça para ver o interior da tua mão, mostra os planetas não descobertos do céu.

Diz à luz, tu calcularás as dimensões encantadoras do insecto-folha.

Para descobrir a nudez daquela que amas, olha as suas mãos. O seu rosto baixou.

Separa o giz do carvão, as papoulas do sangue.

Dá-me o prazer de entrar e sair nas pontas dos pés.

Ponto e vírgula: vês, mesmo na pontuação, como eles são surpreendentes.

Deita-te, levanta-te e agora deita-te.

Até à nova ordem, até à nova ordem monástica, isto é até que as mulheres mais jovens e belas adoptem o decote em cruz: os dois ramos horizontais descobrindo os seios, o pé da cruz nua no baixo-ventre, ligeiramente avermelhado.

Daquilo que tem a cabeça sobre os ombros, abstêm-te.

Regula a tua marcha pela das tempestades.

Nunca mates uma ave da noite.

Olha a flor da campainha: ela não permite ouvir.

Falha a finalidade aparente, quando tiveres que atravessar o teu coração com a flecha.

Opera milagres para os negares.

Tem a idade deste velho corvo que diz: Vinte anos.

Tem cuidado com os carroceiros do bom gosto.

Desenha na poeira os jogos desinteressados do teu tédio.

Não escolhas o tempo de recomeçar.

Sustenta que a tua cabeça, contrariamente às castanhas-da-índia é em absoluto sem peso, uma vez que ainda não caiu.

Doura a pílula com a centelha sem isso negra pela bigorna.

Faz para ti sem franzir as sobrancelhas uma ideia possível das andorinhas.

Escreve o imperecível na areia.

Corrige os teus pais.

Não guardes em ti aquilo que não fira o bom senso.

Imagina que esta mulher está contida em três palavras e que esta colina é um abismo.

Lacra as verdadeiras cartas de amor que escreves com uma hóstia profanada.

Não deixes de dizer ao revólver: Muito lisonjeado mas parece-me tê-lo já encontrado em qualquer lado.

As borboletas do exterior não procuram mais do que alcançar as borboletas do interior; não substituas em ti, se vier a ser quebrado, um único espelho do revérbero.

Amaldiçoa o que é puro, a pureza está amaldiçoada em ti.

Observa a luz nos espelhos dos cegos.

Queres ter ao mesmo tempo o mais pequeno e o mais inquietante livro do mundo? Pede para relerem os selos das tuas cartas de amor e chora; não obstante tudo, tens razão para isso.

Nunca esperes por ti.

Contempla bem estas duas casas: numa estás morto, na outra estás morto.

Pensa em mim que te falo, põe-te no meu lugar para responderes.

Receia passar demasiadamente perto das tapeçarias quando estás só e ouças chamar por ti.

Torce o teu corpo com as tuas próprias mãos por cima dos outros corpos: aceita corajosamente este princípio de higiene.

Come apenas aves em folhas: a árvore animal pode sofrer de Outono.

A tua liberdade com a qual me fazes chorar a rir é a tua liberdade.

Faz fugir o nevoeiro diante de ti mesmo.

Considerando que a natureza mortal das coisas não te confere um poder excepcional de duração, pendura-te pela raiz.

Deixa ao travesseiro idiota o cuidado de te acordar.

Corta as árvores se quiseres, quebra também as pedras mas tem cuidado, tem cuidado com a luz lívida da utilidade.

Só te fitas com um olho, fecha o outro.

Não anules os raios vermelhos do Sol.

Segues pela terceira rua à direita, depois pela primeira à esquerda, chegas a uma praça, voltas junto do café que conheces, segues a primeira rua à esquerda, depois a terceira rua à direita, lanças a tua estátua por terra e ficas.

Sem saber o que irás fazer com ele, apanha o leque que esta mulher deixou cair.

Bate à porta, grita: Entre, e não entres.

Nada tens para fazer antes de morrer.










andre breton e paul éluarda imaculada concepçãotradução franco de sousa
estúdios cor
1972








13 agosto 2007

agosto






1) Esta noite pela primeira vez desde há pelo menos um ano, olho o céu estrelado. Acho-o pequeno. Sou eu que cresço ou é o Universo que se encolhe? Ou as duas coisas ao mesmo tempo? Que diferença das dolorosas contemplações siderais da minha adolescência. Reduziam-me no que o meu romantismo de então acreditava: as insondáveis e infinitas imensidades cósmicas. Estava inteiramente dominado pela melancolia porque todas as minhas emoções eram indefiníveis. Agora, pelo contrário, a emoção é tão definível que poderia moldá-la. Decidi neste instante encomendar um molde de gesso, representando, com o máximo de exactidão, a emoção provocada pela contemplação da abóbada celeste.


Estou reconhecido à física moderna por ter fortalecido, com as suas investigações, a agradável noção, sibarítica e antiromântica entre outras que «o espaço é finito». A minha emoção tem a forma perfeita de um «continuum» com quatro nádegas, a própria ternura da carne do Universo. Ao deitar-me, extenuado pelo dia de trabalho, faço o possível para conservar na cama a minha emoção, reconfortando-me cada vez mais e dizendo-me que, no final de contas, o Universo – mesmo expandível com toda a matéria que contém, por mais abundante que possa parecer – não é senão uma pura e simples questão de favas contadas. Estou tão contente por ver finalmente o Cosmos reduzido a estas proporções razoáveis que seria capaz de esfregar as mãos se esse gesto abominável não fosse tipicamente anti-daliano. Antes de adormecer, em vez de esfregar as mãos, beijá-las-ei com a mais pura alegria, repetindo que o Universo, como qualquer coisa material, tem o ar terrivelmente mesquinho e acanhado se o compararmos, por exemplo, com a amplidão de uma fronte pintada por Rafael.









salvador dali
diário de um génio
tradução de josé luís luna
ulisseia
1965







08 agosto 2007

a porta







Muito pouco
tem sido dito
acerca da porta, uma
face voltada para o caudal
da noite e a outra
para a flutuação e o brilho do lume.


O ar, apanhado
por esta capa
dentro do livro da sala,
é ocupado pelo folhear
de páginas de escuridão e fogo
enquanto o vento empurra as almofadas, ou sacode as chamas.


Não só
da tempestade
o quebra-mar, mas a súbita
fronteira das nossas confluências, aparências,
é também pródiga na oferta de espaço
tanto quanto a vista através de um dólmen.


Porque as portas
são caixilho e monumento
do nosso tempo gasto,
e muito pouco
tem sido dito
das nossas entradas e saídas por elas.










charles tomlinson
as escadas não têm degraus 3
trad gualter cunha
livros cotovia
1990










05 agosto 2007

elogios

V







… Pois estas águas calmas são como leite
e tudo o que se derrama nas macias solidões da manhã.


A ponte lavada, ao amanhecer, com uma água semelhante no sonho à mistura da aurora, faz com o céu uma bela analogia. E a Infância adorável do dia desce mesmo, pela trepadeira das tendas enroladas, à minha canção.


Infância, meu amor, não é senão isto?


Infância, meu amor… esta dupla ligação, do olho e da destreza de amar…
Está tão calmo e morno,
e por tanto tempo,
como é estranho estar aí, de mãos dadas com a facilidade do dia…


Infância, meu amor! é preciso abandoná-la… E já o disse, então? não quero mais estas roupas
a roçar aí, no incurável, nas verdes solidões da manhã… E já o disse então? é preciso servir
como uma velha corda… E este coração, este coração, ai! que se arrasta sobre as pontes, mais humilde e selvagem, e mais extenuado que um velho lambaz…













saint-john perse
elogios
trad. jorge melícias
quasi
2002





01 agosto 2007

mão






e a minha mão
desceu o teu rosto
num movimento
de coisa que parte

e tu disseste:
porque é que as mãos
dos que amámos
nos acenam vazias?

mas não
na minha mão
havia uma lágrima enorme
e azul
que tu
já não sabias ver








gil t. sousa
poemas
2001