22 setembro 2005

posição política



Bananas

A banana tornou-se um fruto demasiado precioso para simbolizar esta república. O fungo da foleirice invadiu tudo. O país devia ser evacuado e desinfectado.

Já não serve de nada escolher entre um Soares e um Cavaco. O único protesto decente é abandonar o país aos seus ratos.




gil t. sousa








07 setembro 2005

quatro estações #crónicas de verão

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Não quero perder o navio em Nova Orleans



Não quero perder o navio em Nova Orleans.
Não quero perder o navio.
Quero subir este vasto e fundo Mississipi
Que foi sonho da minha vida aventureira.
Quero subir o rio de margens baixas, verdes,
O rio lodoso que rasga um continente
Até ao coração desta cidade em perdição perdida.
Quero subir o rio depois de ter visto nos bars escuros
As mulheres nuas de Nova Orleans.
Quero subir o rio na barca antiga,
Igual à das estampas antigas.
Quero subir o rio que já não tem aventura
Para guardar na memória este pedaço de aventura.
Já não há troncos de árvore à deriva no rio,
Mas eu quero agarrar-me ao tronco de árvore
Que à deriva,
No rio,
Arrasta para o mar
Este sonho de fuga
E de abordagem
E de viagem
E de evasão
Para mundos distantes,
Para cidades exóticas,
Para mares insondáveis,
Para rios infindáveis,
— Este sonho de fuga
Que marcou, indelével,
No mapa da vida,
O meu destino.


Nova Orleans, 30 de Abril, 52.




Joaquim Paço d´Arcos
“Poezz”
Almedina 2004

02 setembro 2005

quatro estações #crónicas de verão

ESCATOLOGIA POÉTICA DOS ATROFIOS


1.


Uma questão menor
Nada de pessoal
Um acesso de furor --

Ausência
Falta

Tudo se destrói;
O círculo degenerou em espiral

Faltam ideias
Falta vontade

Respirar é um caos

Nada é verdade,
Só a sua falta.

E o comboio do ódio afasta-se em silêncio

E eu parado
Parado, atafulhado em cigarros
Cigarros e mais cigarros --

Paralisia infernal de desgosto e raiva e morte

(Arrependimento não?)

Lágrimas
Solitárias
Um telefone
Desligado
E mais cigarros

Mais dúvidas
Onde a esperança ainda vive
Falta rogar a Deus,
Só rogar a Deus.

Lá longe, o comboio do ódio rasga planícies cinzentas de indiferença e
morte.


j-




31 agosto 2005

quatro estações #crónicas de verão

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tree shadow


vaga de fundo



Preguiçoso e réptil,
náufrago no anoitecer deste Agosto interminável
sem sequer uma brisa de mar para me levar à nostalgia.
As paredes começam a apodrecer.
Sinto ao longe
o estrépito inclemente da festa. Gargalhadas e gritos,
alguém canta. Também rio. Porque não?
Pouco importa
o gesto. Pouco importa
este deserto glutão e terno
que me come até toda a tristeza.






Marc Granell
"Quinze poetas catalães"
Trad. Egito Gonçalves
Ed. Limiar, Porto, 1994.

18 maio 2005

quatro estações #crónicas de primavera

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bird and bench


me enfrento




do fundo da minha covardia me ergo e enfrento
da convicção da minha teimosia arranco a determinação
e do orgulho a vontade de continuar


da vergonha o medo de desistir
e da incerteza a vontade de descobrir
da timidez faço a capacidade de desenrasque
e da falta de eloquência um silêncio inteligente


da tristeza os sorrisos
da solidão a alegria de viver cada momento


do fraco faço forte
e da fraqueza aparência de grande força
só pelo medo de sofrer, que é tão grande em mim.



c. ribeiro

09 maio 2005

Reverie

5.



Conjunto de variações sobre um tema. Uma página de diário que também é um presente. Para a pessoa mais especial do mundo,



Fim de tarde à varanda. Aquele céu aquela luz,

o teu sorriso que nem um milhão de anos há-de apagar...



S - Nós somos como esses brilhantes (aponta para o parapeito da varanda) que caem da droga. É uma conclusão triste, ou talvez seja triste apenas pensar nisto, mas as coisas são mesmo assim. O parapeito é a vida. Nós caímos na vida e apagamo-nos.

J - Será? Uma vez, disseram-me que o objectivo da vida era continuarmos vivos. Vivemos, não porque sim, mas para continuarmos vivos. A vida é em cada um de nós e no todo, tanto para nós como para o todo... Não somos elementos largados ao acaso num ambiente...

* Vivemos para a morte.

J - A unidade, também. Acho eu.

Lembro-me de que, quando andava no meu segundo psiquiatra, na consulta em que falámos disto, foi logo na primeira, me esforcei por deixar bem claro que achava que viver para a vida não diferia de viver porque sim. Ele concordou.

* Devia estar distraído.

J - Talvez. Ele gostava muito de brincar com o cachimbo. Às vezes perdia-se. Pelo menos, quando falava comigo...

* Esse alheamento parece-me saudável.

J - (Rio-me, rodo a unidade à S.) O melhor dos homens pode ser o pior dos cidadãos, já dizia Platão... ou isso. Mors pretiosa, morrer para o mundo e assim chegar à verdadeira vida. Será que ele o conseguia durante as consultas?

S - Acontece connosco e somos felizes.

* Bodin dividia os homens em porcos, normais e excepcionais. Os melhores dos excepcionais eram santos. Vocês nem sequer são porcos.

S - Tu julgavas que a forma mais correcta de escrever connosco era só com um "n".

J - Verdade, bebé. E verdade, vida! Não somos porcos. Estou a bem com a minha consciência.

Silêncio...

S devolve-me a unidade - Porcos são os homens maus. Os virtuosos sem princípios.

* O Satã de Milton, o Zaratustra de Nietzsche... Mas Nietzsche não tinha consciência disso. Mas, enfim, são esses que fazem coisas acontecer, para bem, ou, como falávamos, para mal.

J - Ou então não. Os parolos não têm alma, ao contrário dos homens maus. Esses possuem sempre uma certa nobreza de espírito, não importa quão anormais possam ser, e, embora nos pareça tão confortável que nos sintamos constantemente tentados a isso, poderemos julgá-los? Hum, que moca. Que tagarela, que chato fico quando isto me dá...

S - Bebé, não fumes mais.

(A unidade volta para S.)


*


Então a Sara põe-se a discutir o estilo do Luís, apaixonado e triste por amor, ou pior ainda, diz ela, pelo vazio do não-amor - e aqui transparece uma singela verdade que nem sempre qero ver: o Luís é sincero, aquilo que escreve é mesmo a sua verdade - embora eu diga à Sara que não, pode ser que ele já tenha passado essa fase e consiga, afinal, dramatizar sem sentir - que é outra faceta da fina arte de inventar. Escrever o que se sente, escrever o que não se sente: descrever o que acontece, inventar o que não acontece, rever o que aconteceu, imaginar caminhos possíveis e nunca tomados... Redescobrir o que aconteceu sem saber ao certo se aconteceu ou não... Fazer coisas acontecer, eventualmente. Tudo se pode resumir a uma questão de técnica, de jeito, e de um bocadinho pequenino de filha da putice.

E ela continua a dizer que não, que se nota quando o dito é sentido, pelo que me disponho a tentar...


*


Reverso "Night & Day", Diálogo de Opostos Deslizantes e Mudanças de Fase:



Imaginemos, pois, que um belo meio de tarde desperto lúcido, regressado de uma estranha estrada que sobe uma colina rente ao mar, assombrada por um não mais acabar de vagas e nuvens negras e chuva. Paralela às fachadas a pique de prédios enormes cujas traseiras dão para o Paraíso e que parecem pirâmides aztecas com escadas e corredores ajardinados em todos os degraus, e a cada degrau corresponde um andar, e aí há sol, tão perto da tempestade. O tempo é de guerra e caem coisas estranhas do céu, dos aviões militares que largam pedaços de motores J-85 e anéis moderadores de neutrões que parecem chupa-chupas gigantescos e muito leves, desenhados por algum génio louco com uma fixação pela Hello Kitty. Acordo com a impressão de já ter estado naquele lugar - acordo assim tantas vezes, e um sonho é apenas um sonho, não preciso de inventar premonições. Basta-me sentir, para lá do susto de um mau acordar, o nada. A doçura do nada, mas um nada fértil, uma névoa que ganha forma à medida que vou ficando mais e mais desperto, o retorno à vida, depois a consciência, "bebé", dizes..., e assim regresso ao mundo, com um sorriso, entre beijinhos e um abraço teu, Sara.



Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto...

Enfim, já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, tudo vale a pena e a vida é bela, não importa quão amargos certos momentos, necessários, o sal dos dias. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras - acordámos num jardim de outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah).

Não podia sentir-me melhor. Acabei de acordar e o quarto escuro parece iluminado por uma luz mágica. Penso que posso pensar nós - a nossa vida - como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Na verdade, a dada altura, tudo levava a crer que isto viria a ser bem diferente. Talvez um fiasco, ambos tínhamos medo. Mas não. Sempre que um de nós se sentiu morrer por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver que podíamos contar um com o outro, uma espécie de simbiose perfeita. Talvez tenhamos tido sorte. Não me sinto livre de culpa: quase consegui fazer com que acabasse mal... mais que um par de vezes. Mas o nosso amor está destinado a prevalecer, mau grado o que desejarem o destino ou o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar, ganharemos sempre. Que venham os outros, obsidientes antigos. Que venham as nossas birras, os nossos maus sentimentos... Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Faz parte de se ser humano, e ainda bem que o somos. Mas não há antídoto como o amor. E que interessam os outros, que poderão vir a interessar, se nos temos sempre? Sirvamos de exemplo - porque podemos. Antes de te conhecer, nunca imaginei... Não é pecado pensar que, talvez um dia, tenhamos de nos pôr um fim. Mas, aí, só a morte. Não posso viver sem ti, eis a permissa maior do nós. Vamos ficar juntos para sempre.

Apaixonados, sim.


*


Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar, duro, negro, pesado. Hoje sei que só posso morrer, morrer já,mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem.

E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé.

Não posso sentir-me feliz. Faz-me esquecer de quem sou. Penso que posso pensar nós - a nossa vida - como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Iludo-me. Porque nós estamos mortos. Já estávamos mortos quando nos conhecemos. Não vale a pena pensar que alguma vez podia ter sido diferente. Porventura teremos pensado que sim. Mas sempre que um de nós tentou viver por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver o mal que estamos e que é cada um de nós. Não te culpo mais do que a mim mesmo. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Culpo a estupidez dos outros e, mais do que tudo, as nossas próprias naturezas. Já só podemos morrer para os outros. Talvez algum deles venha a sentir-se revoltado por nós e a chorar-nos, talvez durante as primeiras duas ou três semanas. Essa mesma pessoa que, daqui a um ano ou dois, já só nos recordará muito de vez em quando. Nos aniversários, no Natal, nos espaços de melancolia em que a sua vida lhe parecer tomar os contornos de onde a nossa acabou. Depois, um dia, nem isso. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a permissa maior do nós. No princípio, era só isso que queria...

Desapaixonados...


*


Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto... Contudo, sei também que só posso morrer, morrer já, mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem.

E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé.

Nada está objectivamente mal, mas podia sentir-me melhor. Penso que posso pensar nós - a nossa vida - como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. E se me iludir? E se, por dentro, já estivermos mortos? Pergunta-me novamente o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras - acordámos num jardim de outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah). Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Porventura teremos pensado que sim. E se nos enganámos? Para que lado nos enganámos? Estaremos mesmo enganados? Afinal, que sinto? Afinal, que sentes tu, meu amor? Dúvidas... tão profundamente humanas. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a permissa maior do nós. Juntos, sempre. Faz calor: destapo-me. Apenas o brilho do televisor ilumina o quarto.

Inquietos.


*


Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar, duro, negro, pesado. Hoje sei que só posso morrer, morrer já,mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto...

E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé.

Enfim, já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, tudo vale a pena e a vida é bela, não importa quão amargos certos momentos, necessários, o sal dos dias. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras - acordámos num jardim de outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah).

Não posso sentir-me feliz. Faz-me esquecer de quem sou. Penso que posso pensar nós - a nossa vida - como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Iludo-me. Porque nós estamos mortos. Já estávamos mortos quando nos conhecemos. Não vale a pena pensar que alguma vez podia ter sido diferente. Porventura teremos pensado que sim. Mas sempre que um de nós tentou viver por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver o mal que estamos e que é cada um de nós. Não te culpo mais do que a mim mesmo. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Culpo a estupidez dos outros e, mais do que tudo, as nossas próprias naturezas. Já só podemos morrer para os outros. Talvez algum deles venha a sentir-se revoltado por nós e a chorar-nos, talvez durante as primeiras duas ou três semanas. Essa mesma pessoa que, daqui a um ano ou dois, já só nos recordará muito de vez em quando. Nos aniversários, no Natal, nos espaços de melancolia em que a sua vida lhe parecer tomar os contornos de onde a nossa acabou. Depois, um dia, nem isso. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a permissa maior do nós. No princípio, era só isso que queria...

Não podia sentir-me melhor. Acabei de acordar e o quarto escuro parece iluminado por uma luz mágica. Penso que posso pensar nós - a nossa vida - como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Na verdade, a dada altura, tudo levava a crer que isto viria a ser bem diferente. Talvez um fiasco, ambos tínhamos medo. Mas não. Sempre que um de nós se sentiu morrer por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver que podíamos contar um com o outro, uma espécie de simbiose perfeita. Talvez tenhamos tido sorte. Não me sinto livre de culpa: quase consegui fazer com que acabasse mal... mais que um par de vezes. Mas o nosso amor está destinado a prevalecer, mau grado o que desejarem o destino ou o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar, ganharemos sempre. Que venham os outros, obsidientes antigos. Que venham as nossas birras, os nossos maus sentimentos... Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Faz parte de se ser humano, e ainda bem que o somos. Mas não há antídoto como o amor. E que interessam os outros, que poderão vir a interessar, se nos temos sempre? Sirvamos de exemplo - porque podemos. E antes de te conhecer, nunca imaginei... Não é pecado pensar que, talvez um dia, tenhamos de nos pôr um fim. Mas, aí, só a morte. Não posso viver sem ti, eis a permissa maior do nós. Vamos ficar juntos para sempre.


E sobrepostos. Não nós (ou talvez nós, geometricamente, mas isso não é nada convosco), as frases. Coisas que pensamos, dizemos, fazemos. Colamo-las de maneiras diferentes, pintamos quadros diferentes. Momentos diferentes. Já nos sentimos assim. Já nos sentimos de muitas outras formas... este texto é só um esboço planeado em jeito de exercício por um menino inseguro acerca do tributo a prestar a quem mais ama. Podia (poderia?) ter escrito melhor. Podia não ter corrido o risco de te magoar, bebé. Podia... Mas preferi assim. Por sabê-las limitadas, quis estas linhas especiais. Quis escrever algo vivo. Como? Assim. Num esboço auto-referente, capaz de se descobrir. Como? Combinando de formas diferentes uma mão cheia de expressões do que somos ou fomos em dados momentos. Estas linhas somos nós. Estas linhas que podemos misturar tanto quanto quisermos. O número de combinações é imenso. Imenso o número de quadros por pintar - aquilo que até agora leram não passa de uns quantos exemplos. Este texto podia nunca mais acabar. Como nós.

Como nós, saudavelmente bipolares. Inegável que existe algo de patológico nestas linhas... Dia e noite, uma infinidade de reversos. Um modesto ricercare inflamado, ora pelo amor, ora pela cólera, ora pelo desânimo, ora pela mais transluzente esperança... No fim, constato mais uma vez o evidente. Somos uns malucos, mas uns malucos fixes. Poderia haver melhor?


*


Por vezes ocorrem-me coisas estúpidas que, no momento, parecem demasiado verdadeiras.

Lembro-me dos dias que passava só e de copo cheio no meu lobby favorito: debicar as batatas fritas e deixar metade da tosta, ler o FT de uma ponta à outra, entretanto beber dois ou três capuccinos e sentir-me mal e salvar-me. Mas essas são lides a que já não posso, não quero regressar. Matei os meus maus amigos, os falsos, desamores deslavados - enterrei as frustrações, renasci contigo. E o mau gosto de outros frustrados matou o meu lobby bar de estimação. Fui lá pela última vez há alguns meses, no Verão passado. A sala permanecia intacta, mas os homens de negócios e os de aspecto literato tinham sido substituídos por turistas sexagenários vestidos de florões em cores berrantes, túnicas, camisas jamaicanas, sandálias. O Pedro das visitas guiadas e freepasses inventados para os lugares da noite já lá não trabalhava há muito. O barman, um velho detestável, de fraque e rabo-de-cavalo grisalho à Pacheco Pereira "século XXI e meio"...

Foi nesse último dia que descobri que a cidade já não tinha mais nada para me oferecer. Visitei os sítios da praxe mais uma vez, um por um, como se procurasse alguém. Não encontrei a diversão pretendida, mas compreendi o que se passava. Não conseguia ter paz. Era a minha culpa.

E a falta. A minha velha vida, omnipresente falta. Falta de amor verdadeiro, de quem aceitasse os meus defeitos e me desse a provar os seus sem querer esconder. Falta de um objectivo para a vida, o eterno regresso ao nada. Dantes, não importava muito se só ou acompanhado - tudo era solidão, tudo era Eu. Um pobre Eu transbordante de orgulho - e tão só - que tu salvaste!

Assim enterrei parte de mim, a pior de todas elas. Estava podre, estagnado, não havia amanhã. Enquanto fui louco, ou me quis parecê-lo, nunca pensei que pudesse haver vida nova num outro dia. Ainda bem. Cresci desapaixonado, lúcido. Horrendamente lúcido. Tinha de tornar-me humano, enterrar essa lucidez podre para aspirar a uma vida nova. E com ela, tantos outros lugares.


*


Frases curtas: ideias breves e poderosas, sentidas como facadas: a tensão da verdade dolorosa que só aos poucos vai conseguindo sair. Frases longas, orações encaixadas entre vírgulas e space dashes... a paz de espírito sempre provoca certa languidez a quem conta... e tudo está OK, mas fica sempre algo em suspenso... há mais por debaixo do véu. O silêncio. Espaços em branco. Algo vazio, mas tanto nos diz... há qualquer coisa que morre em cada ponto final.

Do ânimo, quanto melhor, mais fluido o discurso. Nova vitória de Eros, yee!...

E daí por diante...

Sorrio-te, bebé - digo. Bebé lerá estas linhas e acabará também por sorrir. Afinal, que é isto, este texto, eu a escrevê-lo? Será arte? Isso apenas depende das emoções. E aposto que serão fortes. Evocações que ajudam a instalar a dúvida. Ora tudo parece bem, ora mal. Mas a vida é mesmo assim. Para poder ser sincero, tenho de me ver ao espelho. Não posso desculpar-me perante a minha própria pessoa para que a imagem transmitida não seja uma verdade que implora. A verdade não deve nada a ninguém senão a si mesma e estas linhas querem-se verdadeiras. E quem disse que a auto-referência tinha de ser um labirinto circular? Se só nós vamos duvidar de certas coisas e sentirmo-nos mal com isso por via desta mensagem, também o prazer de termos superado esse "mal" (em todo o caso, antigo e já conhecido), de o vermos como assunto encerrado, como algo para aqui chamado, ao fim e ao cabo, para divertir, bem como o cocktail de substâncias que segregaremos quando estivermos ora a atrofiar, ora a desatrofiar, e que nos farão sentir estranhos...

Serão prazeres apenas nossos.

As endorfinas não são nada de desprezar. E eu segreguei umas quantas à medida que ia escrevendo isto. Atrofiei. Acho que estou "velho" para fazer de mim cobaia mais uma vez, para experimentar de novo em mim próprio a ténue linha entre o génio e a loucura. Se me sinto inseguro? Comparado com como era dantes, sim. Porquê? Porque agora tenho algo a perder, e não quero. Mas isso não significa, precisamente, que, entretanto, ganhei algo? Pois claro que sim. Ora...

E é só por causa disto que é porreiro escrever apenas para mim e para os meus, ou, melhor dizendo, para a minha one and only.

Deixei de ter queridos leitores. Para eles, vós, a história acabou. Ou talvez acabe aqui, caso a minha doce menina aceda a que se publique tamanha colecção de incertezas para quem se quiser dar ao trabalho de pensar em mim e nela. Mas não o façam, não precisamos. Pensem antes em vós: um acto de coragem. Não vos devo nada. Vocês jamais nos ajudariam se precisássemos. Porque hei-de entreter-vos mais, então? Bebam estas palavras, meninos (e, no texto dela, estas linhas também são para vós)...

Daqui, eu aceno a uns, levanto o punho a outros, mas estou-me borrifando para todos..

Pois bem, hoje faz anos que nasceu aquela que me livrou de um pesadelo que aparentava não mais terminar. Não pensem que "temos" sido um mar de rosas. Às vezes sofremos. No princípio, amávamo-nos, mas tive de apostar a minha vida contra a tua timidez, meu amor. Correu bem, juntámo-nos. E nunca mais nos largámos, nunca mais sobrou uma aberta para algo que não o irresistível, infindável, incondicional amor que tenho por ti.

E é doce, tão doce, saber que posso esperar o mesmo de ti, sempre.


*


No dia da vida, falo da morte. Até de nós, mortos. Que pretenderei? A explicação mais simples costuma, também, ser a verdadeira. Ou, enunciando, "one should not increase, beyond what is necessary, the number of entities required to explain anything". William of Occam. E agora? A chave está nas coisas simples... o filme não se deve deixar crescer para além do estritamente necessário à sua existência. Na maioria das vezes... Ora. As dúvidas fazem sofrer. E este texto tresanda a dúvida, mas, afinal, onde está ela? Nas nossas cabeças? Na verdade, é simples. Somos pessoas simples, queremo-nos assim. E no dia em que, para celebrar a vida, desenterrei tanta morte, termino com um sorriso nos lábios. Porque, como alguém disse há muito tempo, os mortos não mandam; quem manda é a vida, e depois da vida o amor.


*


Para a Sara,

que para sempre possamos sonhar juntos.


Maio de 2005.



j-

21 abril 2005

quatro estações #crónicas de primavera

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acordei perplexa
como quem retém
a esperança no olhar
mesmo na margem
aparente do dia
envolvi-me no perfume
da madrugada difusa
e matizada de serenidade

anónima esperei por ti
na entrada da primavera,
e passo a passo
sei que chegas
pontualmente engalanada
exuberante de colorações

retorna o encanto
ressoa a imaginação
resiste assim a eternidade

as horas fluem pelo dia
com o cântico dos pássaros

deixo-te que abarques
este coração
que te aninhes nas recordações
onde a beleza se fixa
onde as paisagens são
horizontes emocionais.

abrigo no corpo o desejo...
emanado de ti
como uma sombra qualquer


l.maltez

05 abril 2005

quatro estações #crónicas de primavera

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Cambodian Snake(156x216) Rodin


monólogo de Molly Bloom


eu adoro as flores
gostava tanto de ter a casa toda a nadar em rosas
meu Deus do céu
não há nada no mundo como a natureza
as montanhas selvagens
e depois o mar as ondas em tropel
a beleza da planície com os campos de aveia e trigo
os animais pra cá e pra lá tão bonitos
só ia fazer bem à alma
ver os rios os lagos e as flores
e as cores a saltarem dos regatos
e formas de toda a espécie
de todos os feitios e cheiros
primaveras e violetas
é a natureza é o que é
quanto a esses que dizem que Deus não existe
não dou um tusto pela sua sabedoria
porque é que não vão e criam alguma coisa
já lhes perguntei muitas vezes
ateus ou sei lá bem como se chamam
que primeiro tratem de se lavar dos seus podres
depois mandam chamar o padre aos berros
quando estão a morrer
e por quê
por quê
porque têm pavor do inferno por causa da consciência pesada
ah sim
conheço-os muito bem a esses
quem foi a primeira pessoa do universo
antes que existisse qualquer outra
quem fez tudo isso
quem
ah isso não sabem eles
e nem eu sei
assim é
assim está
eles podiam proibir o sol de nascer amanhã de manhã
o sol brilha é por tua causa
foi o que ele me disse no dia em que nos deitámos sobre o rododendros
no promontório de Howth.
com o seu fato cinzento chapéu de palha
no dia em que o levei a falar de casamento
foi
antes passei-lhe com a boca um bolinho-de-cheiro
era um ano bissexto também
há 16 anos meu Deus
depois daquele beijo que nunca há-de acabar
e que quase me deixou sufocada
sim
ele disse-me que eu era uma flor da montanha
sim
é isso mesmo
somos completamente flores
o corpo todo da mulher
sim
essa foi uma verdade que ele disse na vida
hoje o sol brilha por tua causa
sim
foi por isso que eu gostei dele
porque vi que ele percebia
ou sentia o que é uma mulher
e eu sabia que podia fazer dele o que eu quisesse
e fui-lhe dando todo o prazer que podia
para o obrigar a pedir-me pra dizer sim
e eu não queria responder
e fiquei só a olhar, para o mar e para o céu
e a pensar em muitas coisas de que ele nada sabia
em Mulvey e Mr. Stanhope e Hester
e no meu pai
no velho Capitão Grovés
nos marinheiros que brincavam ao sai-coelho
como se dizia lá no cais
e no sentinela na frente da casa do governador
com aquela coisa em volta do capacete branco
pobre diabo meio assado
e as moças espanholas a rir nos seus xailes
e nos seus travessões grandes
e os pregões da manhã
os gregos os judeus os árabes
e o diabo sabe lá quem mais
de todos os cantos da Europa
e a Rua do Duque
e a feira de aves todas a cacarejar defronte a Larby Sharon
os burricos coitados a escorregarem cheios de sono
e os vagabundos a dormitarem nas suas mantas nos degraus
na sombra
e as rodas enormes dos carros-de-bois
e o castelo velho de milhares de anos
sim
e aqueles mouros lindos todos de branco e turbantes
como reis
pedindo-nos que nos sentássemos nas suas lojinhas pequeninas
e Ronda com as velhas janelas das pousadas
olhos a faiscar vislumbrados
escondidos para o amante beijar o ferro
e as tabernas meio abertas durante a noite
e as castanholas
e a noite em que perdemos o barco em Algeciras
o vigia que sereno fazia a ronda com a sua lanterna
e oh aquela tremenda corrente lá no fundo
oh
e o mar
o mar às vezes escarlate como fogo
e os poentes fabulosos
e as figueiras nos jardins da Alameda
sim
e todas aquelas ruazinhas estranhas
e as casas rosa e azuis e amarelas
e os jasmins e os gerânios e os cactos
e Gibraltar eu era rapariguinha
onde eu era uma Flor da montanha
sim
quando eu punha a rosa no meu cabelo
como via fazer as raparigas andaluzas
sim
vou usar um vestido vermelho
sim
como ele me beijou contra a muralha mourisca
e eu pensei tanto me faz ser ele como qualquer outro
e então pedi-lhe com os olhos pra me pedir outra vez
sim
e então ele perguntou-me se eu quereria
sim
dizer sim
minha flor da montanha
e primeiro eu passei os meus braços em torno dele
sim
e puxei-o para mim para que sentisse os meus seios só perfume
sim
e o coração dele batia loucamente
e sim
disse eu
sim eu quero
Sim




James Joyce
Do Monólogo de Molly Bloom
in Ulisses.
Texto adaptado
a partir da tradução de António Houaiss

28 março 2005

quatro estações #crónicas de inverno

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19:40


o relógio da estação marcava
dezanove e quarenta

um alto e entroncado homem
sorria de um dos lados da linha

todos os dias

do outro sorria uma mulher
com os seus dezanove
e quarenta anos

a reter, os brincos da mulher
estridentes de silêncio

e as botas dele
invulgarmente mudas

a dilecção dela
eram homens pontuais

a dele mulheres
sorridentes ao silêncio

dia dezanove de um mês
invernoso
do ano de quarenta

de um lado da linha
não havia vislumbre
de mulher ou homem

e do outro
também não



nuno travanca

23 março 2005

Johann Sebastian Bach (1685-1750)

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O teatro das paixões

"A partir das primeiras manifestações musicais medievais, o relato da Paixão está estreitamente ligado a uma ideia de representação (dramas litúrgicos, representações sacras, ofícios dramáticos) frequentemente sugerida pela cenografia das monumentais catedrais góticas. Por outro lado, como testemunham inúmeros quadros e esculturas (pensemos sobretudo nos que enfeitam os altares-mor e as capelas das igrejas do Norte da Europa), o tema da Paixão sugere imediatas conotações teatrais: para a liturgia católica, nos ritos de Sexta-feira e de Sábado Santos, assim como do Caminho da Cruz, além das celebrações populares da Semana Santa. Em terra protestante, sob o estímulo de uma religião que punha em primeiro plano a participação colectiva na oração, a evocação da Paixão manteve o sentido de ‘representação”, de teatro. Talvez o teatro musical alemão, do qual se considera que os Singspiel são os seus primeiros exemplos, não se tenha desenvolvido antes porque tinha o suficiente com as paixões: a transferência dos modos melodramáticos nestas partituras, que depois de Bach se torna hábito, parece confirmá-lo."

In Clássica vol. I, Edições Orbis, Sa 1983


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St Matthew Passion (1727) BWV244

Choir and Orchestra
Composer: Johann Sebastian Bach
Conductor: Philippe Herreweghe
Performer: Ian Bostridge, Andreas Scholl, et al.
Ensemble: Dietrich Henschel
Label: Harmonia Mundi
Catalog: #951676
Audio CD (November 16, 1999)
Number of Discs: 4
ASIN: B00002R0ZL

22 março 2005

um poema de: Lawrence Ferlinghetti



Café Notre Dame


Uma espécie de trauma sexual
prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza-de-pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metro
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das «estações do desejo»
até ao terminal do amor
até às portas da cidade-luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris
da sua paixão




Lawrence Ferlinghetti
In “A boca da verdade”, Antologia Portuguesa
Trad. André e Isabelle Lima
1986






18 março 2005

quatro estações #crónicas de inverno

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trinity park, queen street west


a ave



a ave quadrangular que me povoa os dias sem chuva
me arrasta pelos desertos sem principezinho
nem raposa vermelha
me devora o pescoço em haustos de carnívoro
e o fígado fere na sua fome
insaciável


a ave que ainda não derrotei nos meus pesadelos
de habitante único desta imensa ilha
chamada solidão


esta ave é o meu único companheiro
de longas penas azuis do céu
de garras de prata olhos de negro diamante


com ela subsisto morrendo
sem ela não existo





m. f. s.


17 março 2005

09 março 2005

quatro estações #crónicas de inverno



Jardim no Inverno



Num Jardim morto, aqui...
Jazem feias massas de cores,
Imobilizado permaneço enfim,
Ó Jardim onde passeavam amores...

Aqui, onde o frio me abraça,
Do tempo ainda banhado em dureza,
Mas ali no banco vazio sem graça,
Onde a paixão mostrava a sua raça

Sob o olhar belo desta natureza...
Neste jardim agora o Inverno é triste,
Quase a nascer está de certeza,
Sonho do amor que não existe...

Este jardim em mim agora,
Causa estranheza...




Artur Rebelo


28 fevereiro 2005

book zapping #005 maria gabriela Llansol

o raio sobre o lápis




V

a conclusão de que não há abismo, e que a infância não
pára de desenvolver-se e crescer,
é um novo princípio de realidade, de morte, de velhice:
eu não deixo de viver no mundo interior e exterior das
metamorfoses flutuantes; é já dia, mas a noite que con-
duz a esperança no pensamento, e sobre si própria, não
acabou.
Não acabou definitivamente;
onde estará, protegendo-se da luz, o sapo que brilha?
Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates.»




O Raio Sobre o Lápis
de Maria Gabriela Llansol
desenhos de Julião Sarmento
Assírio & Alvim
Novembro de 2004

17 fevereiro 2005

quatro estações #crónicas de inverno


beautiful solitude


manhãs frias




morrer lentamente
encostado às manhãs frias


com cheiro pestífero de corpos humedecidos
pelos fumos das noites ardidas


os ruídos entram pelas frinchas
e raspam as paredes macilentas
do quarto tíbio


sinuosas sombras bailam no silêncio
alteradas pelo ensejo


só, assumidamente
parei na fria manhã de qualquer lugar
expulsa de saudades


o rapaz que atravessa a rua
ausente das horas leves
mergulha no tempo vazio, sem nexo
como se carregasse o peso do dia


a respiração arrasta-se
pelas esquinas
num regresso ao isolamento


uma voz embalada enegrece na manhã



l.maltez



04 fevereiro 2005

polaróide mínima #003


Rui Knopfli, fotografia de João Vilhena, Revista LER

Memória Consentida, Rui Knopfli

Toda a poesia é a consumação em escrita de emoções limadas pelo sentimento, pela imaginação e pela experiência que se resolvem numa imagem, ou em imagens, e a que chamamos poema. Imagem é o que apresenta instantaneamente um complexo intelectual e emocional (1) e pode ser obscura ou enigmática, não porque o poeta se pretenda inacessível, mas porque o mundo poético é gerador de absolutos de que ele apenas é o comentador.
A poesia de Knopfli é dramática, encena vezes sem conta o mundo, o tempo, o amor e a morte. Vive de raízes largadas (indestrutíveis) na terra africana, excelência de mistérios e de apelos a uma liberdade que vem do mais profundo da nossa memória e que grita insistentemente o seu direito a ser consentida nos outros lugares e nas outras pessoas.
Liberdade absurda, como a luz, que o autor reinterpreta num ritual de melancolia, dividido na incompreensão do sentimento de perda, de que é feita a vida, e no sofrimento/prazer que a memória provoca ao trazer para a luz aquilo que já é escuridão. Passado e presente em fragmentos que estilhaçam a alma até uma tristeza profunda, que apenas se resolve pela evocação, que só se exorciza quando as palavras, muito mais fortes que a memória, ficam no lugar dos rios, no lugar dos sonhos, muito mais eternas, muito mais vastas que qualquer espaço de desejo ou de amor.
Mesmo quando se trata de “palavras encardidas e magoadas” (2) de que se serve de igual modo para dar visibilidade (contar) ao seu sonho duma História heróica e épica, de síntese portuguesa, vivida desde há cinco séculos pelas gentes, presentes ao encontro que o Tempo havia, desde o princípio de tudo, marcado com Portugal.
Rui Knopfli nasceu em 10 de Agosto de 1932 em Inhambane, Moçambique, onde viveu até Março de 1975, fixando—se posteriormente em Londres. A sua obra denota múltiplas raízes europeias, clássicas e modernas, apesar da componente especificamente moçambicana.
Escreveu “O País dos Outros”, 1959; “Reino Submarino 1962; “Máquina de Areia”, 1964; “Mangas Verdes com Sal”, 1969; "A Ilha de Próspero”, 1972 e “O Escriba Acocorado”, 1978; "Memória Consentida", 1982 e "O Corpo de Atena" de 1984.
O seu discurso caracteriza—se por um cinzentismo de imagens que é o pano de fundo de toda a sua poesia. Descrente, longe dos arrebatamentos que transformam a “praga da vida” em explosões de luz, escreve—nos sempre sob um espaço pleno de vazio, notas pardas exalando apenas tons de agonia crepuscular (3) . Colhendo influências significativas em T.S.Elliot, quer temáticas, quer estilísticas, a sua “metáfora é elegante e mortífera de uma decomposição lenta e agónica” (4). Longe do consenso da crítica (5), não se pode, no entanto, deixar de considerar a sua obra de relevante no contexto das várias literaturas de língua portuguesa.

gil t. sousa
Maio de 1995

Notas:
(1) Ezra Pound, in Poetry, Março de 1913
(2) in Mangas Verdes com Sal, Lourenço Marques, 1969, 2 edição, Minerva Central, 1972, pág. 21
(3) cf. Reino Submarino, pág.94
(4) Eugénio Lisboa,in “A Voz Ciciada (Ensaio de leitura da poesia de Rui Knopfil Lx. Agosto 1977
(5) Ver Alfredo Margarido, Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa, Col. “ensaios, Regra do Jogo, 1980, pp.479—5l0


Três poemas de “Memória Consentida” (1982)


Gritarás o meu nome

Gritarás o meu nome em ruas
desertas e a tua voz será
como a do vento sobre a areia:
um som inútil de encontro ao silêncio.

Não responderei ao teu apelo,
embora ardentemente o deseje.
O lugar onde moro é um obscuro
lugar de pedra e mudez:

não há palavras que o alcancem.
gelam-lhe os gritos por fora.
Serei como as areias que escutam
o vento e apenas estremecem.

Gritarás o meu nome em ruas
desertas e a tua voz ouvirá
o próprio som sem entender,
como o vento, o beijo da areia.

Teu grito encontrará somente
a angústia do grito ampliado,
vento e areia. Gritarás o meu
nome em ruas desertas.


Sem nada de meu

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.


Mania do suicídio


Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.


29 janeiro 2005

quatro estações #crónicas de inverno




automatic winter

quem se importa se não vens pela estrada, ou se o teu nome é muito longe como a sombra? hoje abri as mãos enquanto o sul me fugia em pássaros sob a lua. há árvores tão lentas neste Inverno e passos mudos, água nos caminhos do espelho.

tu não estás, não estás lentamente, nem sobre os telhados, nem mais longe como o forte querer que a neve caia e tudo apague como se apagava o mundo quando docemente um beijo nos explodia no meio da solidão.



gil t sousa

18 janeiro 2005

book zapping #004 henri michaux


(...)

Mais tarde, procurados em todos os pon-
tos do Império do Meio, os caracteres de
outrora, cuidadosamente reunidos, recopia-
dos, foram interpretados pelos letrados.
Surgia um inventário, um dicionário dos si-
nais de origem.

Recuperados!
e recuperava-se ao mesmo tempo a emoção
das calmas e serenas e ternas primeiras cali-
grafias.

Os caracteres ressuscitados na sua inten-
ção primeira reviviam.


A essa luz qualquer página escrita, qual-
quer superfície coberta de caracteres, torna-
-se fervilhante e transbordante... cheia de
coisas, de vidas, de tudo o que há no mun-
do... no mundo da China


cheia de luas, cheia de corações, cheia de
portas
cheia de homens que se inclinam
que se retiram, que se querem mal, que fazem
a paz
cheia de obstáculos
cheia de mãos direitas, de mãos esquerdas
de mãos que se apertam, que se respondem,
que se ligam para sempre
cheia de mãos frente a frente,
de mãos na defensiva, de mãos ocupadas
cheia de manhãs
cheia de portas
cheia de água caindo gota a gota das nuvens
cheia de barcas que atravessam de uma mar-
gem à outra
cheia de aterros
cheia de forjas
e d’arcos e de fugitivos
e cheia de calamidades
e cheia de ladrões levando debaixo do braço
os objectos roubados
e cheia de cobiças
e cheia de nuvens
e cheia também de palavras sinceras
e cheia de reuniões
e cheia de crianças que nascem penteadas
e cheia de buracos na terra
e de umbigos no corpo
e cheia de crâneos
e cheia de fossas
e cheia de aves migratórias,
e cheia de recém-nascidos — quantos re-
cém-nascidos! —
e cheia de metais nas profundezas do solo
e cheia de terras virgens
e de vapores que sobem dos prados e dos
pântanos
e cheia de dragões
cheia de demónios que vagueiam pelos
campos
e cheia de tudo o que existe no universo
tal qual ou disposto de outra maneira
escolhido de propósito pelo inventor de si-
nais para estar junto
cenas para fazer pensar
cenas de toda a espécie
cenas para oferecer um sentido, para ofere-
cer vários,
para propô-los ao espírito
para deixá-los emanar
grupos para resultar em ideias
ou para se resolver em poesia.



Ideogramas na China
Henri Michaux
Trad. Ernesto Sampaio
Cotovia / Fundação Oriente
1999

12 janeiro 2005

quatro estações #crónicas de inverno



Amontoamo-nos de frio


Amontoamo-nos de frio.
O frio das casas, o frio das camas vazias
das mãos, o frio das vozes ausentes.
O frio que nos toma nas margens inacessíveis
de nós próprios, o frio que vem cuspir-nos
apedrejar-nos, o frio da morte.
O frio do corpo que não encontra
o lugar na casa, o frio inabitável
de algumas palavras.
O frio de que não saberei salvar-nos.



diogo m. silva

11 janeiro 2005

citações



“Acontece na vida de toda a gente. De repente, a porta que se fechou entreabre-se, a grade que se acabou de descer volta a erguer-se, o não definitivo já não é senão um talvez, o mundo transfigura-se, um sangue novo corre-nos nas veias. É a esperança. Pena suspensa. O veredicto de um juiz, de um médico, de um cônsul fica adiado. Uma voz anuncia-nos que nem tudo está perdido. Trémulos, com lágrimas de gratidão nos olhos, passamos para o aposento seguinte, onde nos pedem para esperarmos, antes de nos lançarem no abismo.”
Nina Berberova, Terra de Ninguém

10 janeiro 2005

quatro estações #crónicas de inverno


Brueghel, provérbios populares flamengos



Lua em escorpião


É Natal e tenho os pés frios,
não genialmente frios como Pessoa,
apenas uns vulgares pés frios.
*
*
Nesta época há uma vontade especial
de desfigurar a cidade...
*
*
Belém seria um imenso tabuleiro de xadrez
só com peças pretas
exceptuando dois cavalos,
seriam de mármore dando um certo ar
de castelo medieval ao Mosteiro,
que acolheria a escola dos domadores de luas.
*
*
Ao Tejo decretava pena máxima:
uma planície de nevoeiro futurista
daquele com arco-íris por baixo
e inúmeras pontes para o pote de ouro,
todo sonorizado com jazz low-profile
para as árvores e plantas consumirem alegremente.
(principalmente as plantas)
*
*
No meio a consciência colectiva,
no meio, a grande alma decepada de vida,
no meio, os olhos e as bocas secas,
no meio, a fonte de fumo sem fogo,
no meio, a guitarra de doze cordas,
o coração do poeta aberto como uma melancia,
no meio, entre paredes fortificadas,
no meio era a cidade
os sexos virgens, a fome
e a cegueira.
No meio era a cidade
entre paredes fortificadas.
*
*
Com o dedo passava as tardes a descrever vertigens
e breves desenhos
num imóvel espelho de água.
Eu e aquela coisa que surgiu
éramos só um espaço dentro do poema
onde dois sorrisos fugiam em cumplicidade, do rosto.
E no entanto, um espaço tornou-se tudo...
Bastou para descrever-lhe os seios,
cozer-lhe uns olhos de mel e
um sorriso mariposa vermelho,
plantar-lhe sementes de cio e
de tempestade no sexo de areia,
remendar-lhe as lágrimas.
*
*
“Your time has come”
*
*
No limiar do milénio irá lembrar-se...
Como eu lembro, o nosso amor, um amplexo no cérebro
sob a forma de explosões de uma guerra
perdida no tempo, masoquista.
*
*
Ontem implorei a devolução da paisagem,
das barreiras
das grandes bebedeiras de verde,
e enviei-te para debaixo do nevoeiro
encaminhada para o teu tesouro.
*
*
O espelho de água solidificou, é verdade...
Mas agora quero saltar as paredes do meio
e tomar chá com a rainha,
montar os cavalos de mármore
e ensinar aos artistas o ofício dos sonhos,
fixar a lua em escorpião
e provar o seu veneno contigo.
*
Boneca de trapos
*
vou fazer-te uma confidência:
o Tejo é infiel... fui eu que o criei...



Tiago Alexandre Belejo Correia

09 janeiro 2005

um poema de: Sharon Olds



Teoria dos tremores


Quando dois estratos terrestres se esfregam um no outro
como uma mãe e uma filha
chama-se uma falha.

Há falhas que deslizam suaves uma pela outra
uma polegada por ano, tão-só de raspão
como um homem que passa a mão pelo queixo,
esse homem entre nós,

e há falhas que embicam numa curva durante vinte anos.
A crista dilata-se como a testa sarcástica de um pai
e tudo estaca no mesmo sítio, o homem entre nós.

Quando isso acontecer, haverá graves danos
nas zonas industriais e estâncias de veraneio
quando os fundos estratos
finalmente desencalharem
da terrível pressão do contacto.

A terra estala
e os inocentes submergem gentilmente nela como nadadores.



Sharon Olds
“Satanás Diz”
Trad, Margarida Vale de Gato
Antígona, Lisboa 2004

06 janeiro 2005

um poema de: Josep Maria Llompart


Sou cidadão de um dócil território


Sou cidadão de um dócil território,
obtuso habitante de fulminante aldeia;
vivem em mim inominadas mortes, confusão
de estandartes sombrios, fantasmas de lura.

Irado e louco, pregador enganado,
escrevo o nome ardente com marfim e piche:
tabuleiro de xadrez onde tomam posse
ânsias, afãs, com férreo clamor.

Sou verme condenado, humilhado, atrás
de vaga ardente em mar de limo e lama,
grito na noite, espera desesperada,

e sigo adiante, para além do negro e branco,
alma adentro, arvorando a bandeira:
sobre amarelas dedadas de sangue áspero.



Josep Maria Llompart
“Quinze poetas catalães”
Ed. Limiar, Porto, 1994.

Trad. Egito Gonçalves

05 janeiro 2005

quatro estações #crónicas de inverno

Momento de Inverno

Acordei na manhã escura
O dia não amanheceu...
Vou andar hoje na manhã dura,
Com sujo de negro o céu? Não.
Vou tentar deitar e dormir
Fingir que é noite sem olhar
Vou paralisar as horas e não sair,
Até este dia clarear.
Será que o Sol se mudou?
Trocou o lugar com a lua?
Olhei da janela a manhã escura,
Está um dia tão triste cinzento,
Está um dia de cinza pura.
Afinal é de Inverno este momento...


Artur Rebelo

02 janeiro 2005

quatro estações #crónicas de inverno

frequente inverno mensurável


uma mulher equivocada media a palmo o inverno. meses sobre meses redondos lhe surgiam como o burburinho lúcido da viagem. fazia aqueles estalidos frágeis como se lhe coubesse no dedo a rotação do planeta devastado o ruído da morte da ausência. empilhava as mãos alternadamente em tom de súbita precipitação e depois sorria. sorria como se estivesse a sentir-nos alheios distantes cheios dela preenchidos até à raiz do cabelo quando ele caía. e agora a vida corria a todo o gás a saraiva atingia a máxima velocidade a mulher escondida num manto branco e o baton escarlate na seiva dos homens do inverno ao largo diluia-se. e a sinfonia da sua metamorfose do estalido dos seus dedos da morte equivocada regurgitava. as margens as correntes cavalgavam a ciranda até perder de vista a vista até perder o norte ao sul. este lugar de névoa o aparecimento do pequeno raio a têmpora a salgar durante a viagem petrificara as águas o odor limítrofe do frio as frieiras as gretas das mãos que a palmo encontravam o inverno. a marca deste inverno deste imenso manto desesperava nos reflexos breves das janelas inclusas. a reclusão desta mulher permitia-lhe dedilhar o medo lembrar profundamente a raiz do infinito. há um mistério de pureza na crença deste equívoco jaz inerte o almiscarado do inverno por esses dedos. apetece-me uma laranja de inverno um tomo dedilhado por uma mulher equivocada. apetece-lhe o inverno e a mim intuído o tempo renascida a manhã o inverno todo.



nuno travanca