27 agosto 2016

álvaro de campos / magnificat



Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

7-11-1933

  

fernando pessoa
poesias de álvaro de campos
edições ática
1980



26 agosto 2016

ana hatherly / era uma vez duas serpentes



Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.


ana hatherley
39 tisanas
1969



25 agosto 2016

joão esteves / nostalgia



todos os dias, há sempre um tempo
que de mim se separa.

tempo que cai de maduro,
no tempo perdido,
no tempo fingido.

tempo que empresto ao tempo,
mas que nunca revejo.

investimento mal calculado?

o tempo, por certo,
está-me a dever tempo.

dizem, contudo,
não haver outro pacto,
senão,
dar tempo ao tempo.



joão esteves



24 agosto 2016

frederico pedreira / presa comum



1.
Queimei os dedos todos na
volta de uma ou outra memória,
vasculhando num livro escuro
a voz que me prometera.
Já tu, que tanto disseste, não foste
sequer uma segunda educação.

O espelho da casa, de que levaste metade:
Copiou-me todos os gestos, segredos.
Escrevo, tristeza e papel quadriculado.
Se levantar os olhos, terei
a sombra corcunda, as orelhas de burro:
nunca verás palácios nos sulcos da parede.
Vira a página, faz um verso igual ao outro.
Entende: não há cura para este consolo.

2.
Tento subtrair-me ao frio
dos dias, pequenos golpes
impronunciáveis, outrora
carícias, coisas antigas.

Pondero a misteriosa
engrenagem de tudo
o que sempre pareceu
estanque na alvorada:

o nevoeiro com o seu riso,
o copo num soluço de pó,
deixado à cabeceira, o meu
corpo apagado a um canto.

3.
Uma manhã de Outono.
Donzel, peço-te: veste o fato,
a camisa gasta no colarinho,
calças demasiado largas,
depois os sapatos descosidos.

A casa sossegada
sempre que não estás aqui.
Em cima da cómoda, os frascos
dos comprimidos, alguns abertos.
Evita arreganhar os dentes:
este dia não tem um começo real.

O que poderá acontecer hoje
que faça de ti uma coisa diferente?
Estarás sozinho quando mais logo
o fogo voltar a falar em casa.

Espero que caias de borco,
que lamentes tudo o que
ouviste dos outros passageiros,
dos tolos de luz, dos que
nunca mais tropeçam na armadilha.
Que faças essa cinza a tua ceia.

E de seguida cospe, cospe inteiro –
como um cão invariável, faminto.


frederico pedreira
presa comum
voo rasante
antologia de poesia contemporânea
mariposa azual
2015



23 agosto 2016

julio cortázar / instruções para chorar



Prescindindo dos motivos, vamos ater-nos à maneira correcta de chorar ou seja, um pranto que não ingresse no escândalo, nem insulte o sorriso com paralela e torpe semelhança. Consiste o pranto médio ou corrente numa contracção geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranho, este último no final, já que o pranto termina no momento em que uma pessoa se assoa energicamente.

Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe for impossível por haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães onde ninguém entra.

Quando o pranto começar, você cobrirá com decoro o rosto usando para tal ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com a manga do bibe a tapar a cara, e de preferência a um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.


júlio cortázar
histórias de cronópios e de famas
manual de instruções
tradução de alfacinha da silva
editorial estampa
1973



22 agosto 2016

guillermo carnero / sweetie, why do snails come creeping out?




Se és novinha e tens amor,
que farás quando maior?

Anónimo, Ramillete de flores
(Lisboa, 1593)


Sempre chegamos cedo, ou tarde, ou nunca
a comboios que partiram ou não existem,
apanhamo-los já em andamento
para qualquer lugar sem estação nem nome.
Onde eu estaria, Capuchinho,
quando da torre abaixo tu lançavas
a escada de amor de tuas tranças.
Dispo-te, e o tempo claro que te envolve
súbito se amontoa e cai em mim
com um ácido rumor de arestas negras
ao chegar a tirar-te esses soquetes
curtos, de ir à aula de ginástica,
de sair em passeio com um vestido branco:
magoa-me a surpresa
se aprendo em tuas aulas algum truque brilhante,
um magistral alarde de gramática parda.
Quatro coisas ainda posso descobrir-te
e deixar gravadas em tua pele
essas doces lembranças que uma mulher não esquece:
o que é o sabor a casco e o seu travo,
o que leva a lagosta Thermidor,
porque nos arrastamos quando termina a chuva,
para apanhar o sol, os caracóis.


guillermo carnero
tradução de josé bento
canal nr. 6
revista de literatura
palha de abrantes
1999



21 agosto 2016

fátima maldonado / cenas de perigo na mansarda



I
Na primeira versão
o desenho exprimia
tersa arremetida
do homem contra o tronco
no sofá onde o couro
mutava sua escama.
Imprevista
metamorfose
a lepra eclodia
no espaldar,
o encosto dos braços
esculpia sulcos
por entre linfa ocre.
A segunda versão
erigia a figura
num dólmen de xisto.
Um véu
lacrava-a em torno
do casulo,
a larva oculta
por biombos de cuspo.
Potente acumular
de vestes
calafetava fugas
vazando as alforrias
num molde
onde petrificavam.
Gravuras semelhantes,
enigmas de Elêusis
celebravam em Pompeia
o solstício de Verão.



fátima maldonado
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990



20 agosto 2016

juan lamillar / ignoram



Ignoram as estátuas, os fragmentos antigos,
as precárias mãos que no tempo
levantam muralhas, torres, arcos,
edifícios esvaziados pela morte.
Os deuses esculpidos são lembrança:
tão frágil, que um regato apaga
suas cores de ira, ou piedade ou calma.
Ninguém sabe de deuses:
ignoram seus mandatos escritos na pedra,
e até na pedra olham só o nada.
Porque diante de seus olhos
começam a viver a planície e o rio,
e o mar desperta,
e as árvores dançam entrelaçadas, únicas,
e o sol é um desejo que as suas mãos tocam.


juan lamillar
tradução de josé bento
canal nr. 5
revista de literatura
palha de abrantes
1999



19 agosto 2016

paulo da costa domingos / árias



1
Saltos loucos de potros pisando
rosas. Potros, uma prega
entre dois rios contraditórios. Frios
declives a floração do cérebro
minam o sonho. Depois,
a corrida da sobrevivência. E mais potros
e potros virtuais, vermelhos, levantando
folhas cheias de seiva. Saltos,
genuínos, frases incompletas ali presas
como cola no palato, em círculo…
Quem me trouxe aqui, à livre margem
da resina, à morada
das farpas? E porquê o martírio das flores
maceradas pelos doidos potros
da imaginação? Que sossego, que mortal
sossego após esta passagem predadora
onde nenhum equívoco ou prematuro
vento deveria polinizar agora
o campo arado. Sílabas.


paulo da costa domingos
canal nr. 3
revista de literatura
palha de abrantes
1998 



18 agosto 2016

erín moure /estruturas imensas



O poema é sem dúvida uma estrutura imensa. Partes
que ainda não viste podem fazer-te estremecer.

Uma luz pendurada debaixo do capo aberto do carro, todas
aquelas coisas oleosas lá dentro, alguém a trabalhar no motor
talvez o teu pai.

A luz a ressaltar da parede da garagem, a imensa
sombra, linhas de luz
todas torcidas contra as ferramentas.

A olhar para cima para o veio do contraplacado daquelas paredes,
inacabadas, o pladur nunca lhes foi acrescentado.
Uma viagem de luz até às estrelas com astronautas.

Quem “podia” ou “não podia” ser astronauta (argumento).
Engenheiro, a construir pontes cívicas
sobre o Rio Bow.

Faz todo o sentido, disseram-lhe, és uma menina, não
podes ser astronauta. Ouve o Sr. Krupa, querida,
nem podes ser engenheiro.


erín moure
pulllllllllll
poesia contemporânea do canadá
selecção e tradução de john havelda,
isabel patim & manuel portela
antígona
2005



17 agosto 2016

nuno júdice / a penosa descoberta



«Poética», disse ele, pousando o copo.
Posso não acreditar em nada, nem seguir
o barulho regular dos relógios, continuou
no mesmo tom de voz: a minha vida
aproxima-se do ideal poético superior.
Abriu a janela e recebeu na cara os ventos
do norte. Nada o impedia, agora,
do encontro com a solidão irremediável.
Pousou a bebida no parapeito, agarrou
com a mão direita um ramo de árvore e,
com a mão esquerda fechada no ar, disse
em voz alta: «Poética», para que todos
ouvissem. No entanto, ao dar-se conta
de que estava só, em plena madrugada,
fechou a janela, fechou o livro que começara
a ler, na véspera, fechou a luz
 – e à claridade baça e fria do inverno
sentou-se no chão de madeira, a pensar,
como se não houvesse mais ninguém
naquele mundo.


nuno júdice
o mecanismo romântico da fragmentação
editorial inova
1975


16 agosto 2016

fernando luís / num café de bolonha



5
Um momento, deixa-me.
Não és quem quero, ver-te
turva o sentido desta realidade,
da ponte sobre o tejo,
cacilhas, o inverno
de temporais lá para dezembro.

Procuro-te no descampado
irreal das madrugadas, escadinhas
da praia acima, escolas gerais,
costa do castelo numa pequena
melodia sem parecença sem ninguém.

Por isso, esqueçamos
coisas por dizer, hábeis
silêncios, loas,
porque o sentimento em
ti posto se entrelaça em meias-águas.

Uma pausa,
um abanar de cornos
e a paisagem voltará,
estou certo,
com seu insolente ímpeto,
sua altiva harmonia.



fernando luís
num café de bolonha
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990



15 agosto 2016

jorge de sousa braga / esse verão



Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
 – Tão quente tão quente
esse verão

  

jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991